Homem, você tem medo de quê?

Em uma sala de aula de inglês, dividi os oito alunos em dois grupos – quatro mulheres e quatro homens – e pedi para que eles conversassem entre eles sobre quais seriam as vantagens de ser do sexo oposto. Os homens conversaram sobre as vantagens de ser mulher, e as mulheres sobre as vantagens de ser homem. Até então, havia sido uma aula bem leve, engraçada, sobre os estereótipos de gênero presentes na sociedade e o quão distantes da realidade eles de fato são. A maioria das minhas alunas, por exemplo, não gostava de crianças e não pretendia ser mãe. Meus alunos todos gostavam de cozinhar e eram responsáveis por afazeres domésticos. Até aí, ok.

A discussão em grupos, no entanto, tomou uma proporção que talvez eu já devesse ter esperado. Ao listarem as vantagens de ser mulher, meus alunos – talvez inocentemente – apontaram que mulheres pagam menos para entrar nas festas, recebem bebidas e geralmente não precisam pagar a conta em um encontro. Da mesma forma, mulheres não são obrigadas a se alistarem, se aposentam mais cedo e etc.

Podemos discutir sobre a forma como meus alunos, enquanto homens, são alheios ao real significado dessas supostas vantagens: pagamos menos em festas pois somos a mercadoria da festa; recebemos bebidas pois os homens tendem a esperar receber algo em troca; não pagamos a conta pois o cavalheirismo assim o dita, e o que é o cavalheirismo se não uma forma de afirmação de superioridade, de dominação?; podemos dizer que o alistamento não é obrigatório a mulheres por que, majoritariamente, não nos querem lá, porque não somos consideradas fortes o suficiente, boas o suficiente; nos aposentamos mais cedo pois vivemos, ainda, uma dupla jornada que nos liquida no decorrer dos anos e, muitas vezes, impede o nosso progresso profissional. Mas não é sobre isso que precisamos conversar.

É sobre as vantagens de ser homem.

Minhas alunas, todas novas, adolescentes e jovens adultas, entre risadas desconfortáveis, sorrisos resignados e olhares para mim – como elas, uma mulher – listavam as vantagens de ser homem: as pessoas te respeitam sem você precisar fazer nada de mais; você pode andar na rua de noite sem ter medo de ser estuprada; se é um assalto, só levam as suas coisas, você não corre outros riscos; você pode beber em festas sem ser julgada por isso e sem se tornar vulnerável aos avanços de homens ao redor.

Se algum leitor homem chegar a esse texto, gostaria que me respondesse essa pergunta: Qual é o seu maior medo? Por que o nosso, claramente, é você.

Me chocou naquele momento, como sempre me choca quando escuto relatos de mulheres sobre as batalhas de se ser mulher, a quantidade extrema de medo com a qual convivemos diariamente. Temos medo de sair de casa, temos medo, em alguns casos, de voltar para casa. Temos medo no nosso ambiente de trabalho, de estudo, de lazer. Carregamos esse medo conosco todo o dia, e ele pesa, e ele nos limita. Me pergunto agora, assim como me perguntei naquela hora, olhando para os meus alunos calmos e leves, e para as minhas alunas que traziam um misto de tensão, tristeza e revolta, se os homens fazem ideia do medo que sentimos, do que é viver com pavor.

Me lembrei, compartilhei com eles, e venho aqui compartilhar com vocês, uma frase da maravilhosa Margaret Atwood que resume bem a discrepância entre os pesos que sujeitos masculinos e femininos carregam na nossa sociedade, na esperança de gerar uma reflexão da importância do feminismo como um movimento filosófico e político, e do longo caminho que ainda temos a percorrer para que uma total igualdade seja alcançada:

“Homens têm medo que mulheres riam deles. Mulheres têm medo que homens as matem.”

Stella Gibson,  The Fall – BBC

Jade

Jade Arbo, 24, feminazi esquerdopata louca da problematização (mentira, sou pós-moderna cirandeira, mas vai ter crítica sim). Estudante de Bacharelado em Letras, interessada em feminismo, filosofia, história e o gênero dos anjos.

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