Eu ainda estou aqui

 

                                            Foto: Tumblr

É tão difícil se libertar dessa situação de não se pertencer a nada, os anos passam e não sou mais uma criança, já era para eu ter me encontrado, e realmente me encontrei, mas não acredito que eu mesma me aceite totalmente.

Considero-me uma pessoa bem resolvida, e bem desconstruída, mas ainda tenho resquícios de uma sociedade que cria as mulheres para odiarem a si mesmas. Não me sinto encaixada, nem feliz com o meu corpo, possuo inseguranças de carreira e não me acho adequada o suficiente para muitos aspectos.

Vejo mulheres que nem imaginam a sua própria capacidade de brilhar por inseguranças incutidas em seus inconscientes, assim como eu sinto minha criatividade e motivação sendo reprimidos por uma sociedade completamente fechada para emponderamento de ideias. Por mais que tenhamos avançado e conquistamos cada vez mais espaço, eu me sinto ameaçada pela a vida em sociedade, ver um grande ator assumir um assedio sexual e continuar sendo protegido por muitos, me assusta.

Ligar a televisão e ver o corpo da mulher como um objeto usado para agregar valores a um homem me desmotiva, sinto como se essa situação nunca fosse mudar, como se estivéssemos estática nessa porra de era dos retrocessos.  Pode parecer besteira, mas me sinto presa no meu próprio corpo, uma alma liberta grudada em um uma carne que me judia, presa e intoxicada em um corpo mundano que ainda é obrigada a sobreviver nesta equação insolúvel.

Tenho medo de nunca me encontrar neste mundo, e mais medo ainda de me encontrar, queria deixar minha solidão de lado, mas ao mesmo tempo não quero me tornar parte desse pesadelo, nem compactuar com esse espiral de silencio sufocante.

Eu não mereço descontar um ódio que não é meu no meu próprio ser, não tem culpa dos absurdos impostos a mim.  Tenho meu próprio poder, e francamente, tenho tudo que eu preciso para me fazer feliz, e me satisfazer no aspecto que for.

Não vale a pena se padronizar, fingir sorrisos, abaixar a cabeça para as agressões que somos expostas todos os dias direta e indiretamente. Lutar vale a pena, porque independente do jeito que somos se andarmos unidas o amor, respeito, sororiedade jamais nos faltará.

Nós nos bastamos.

ELAS CONTRA O ASSÉDIO

Relatos de nós, Elas por Elas, para vocês mulheres

 

Todas nós acompanhamos nos últimos dias os desdobramentos da denúncia de assédio da figurinista Su Tonani cometida pelo ator global José Mayer. A verdade só obteve ouvidos e voz após um forte grupo de mulheres dos bastidores da Rede Globo se unirem e criarem o movimento #chegadeassedio. Somente assim José Mayer admitiu suas ações, com um pedido de desculpas que nada mais é do que o mínimo e obrigação, diante do sofrimento psicológico, emocional e profissional que causou à vítima.

Seja no ambiente de trabalho, nas ruas e até entre amigos e familiares, somos direcionadas a sempre ter dúvida do ocorrido, ou seguir o caminho do isolamento e autoculpa. “Será que estou exagerando?”. Não moça, você não está. E nós, do Elas por Elas, doze mulheres que também vivem diariamente o risco do assédio, estamos aqui para contar histórias reais que vivenciamos. Estamos para soltar a nossa voz e gritar em bom e alto som:

 – É assédio! E você não está sozinha.

Hoje nós lançamos a campanha ELAS CONTRA O ASSÉDIO, e incentivamos todas vocês, mulheres do nosso Brasil, a compartilharem suas e nossas histórias. Que a gente não tenha mais dúvidas, e sim soluções. Aqui nós temos voz. Chega de assédio.

 

“Terminei um dos ensaios do grupo de Danças Urbanas do qual fazia parte era umas 19hs. Fui embora sozinha (coisa que não fazia), não quis esperar meu marido porque eu não estava bem e precisava chegar logo em casa. Ao passar na frente de um bar, um homem que estava na porta me chamou : “Vem beber uma comigo”. Eu não respondi, nem ao menos olhei para trás, mas ele não se deu por satisfeito e começou a vir em minha direção. Ao perceber isso, acelerei meus passos pronta para me defender se ele se aproximasse mais. Ele tentou, mas não conseguiu me alcançar ( acredito que por estar bêbado), então cheguei em casa aliviada e assustada ao mesmo tempo. Senti muito medo sim, mas o sentimento maior foi raiva, nunca quis tanto agredir alguém”

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“No carnaval daqui de Salvador um cara me puxou pra me beijar e eu recusei, aí ele pegou uma pistola de água e molhou todo o meu short. Aqui acontece muito no carnaval”

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“Um amigo do meu irmão apertou meus seios (eu tinha apenas 14 anos) dizendo que era nosso segredo e eu não poderia falar para ninguém porquê tanto meu imrão irmão quanto a esposa dele poderiam desconfiar”

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“O assédio mais inesperado veio em um momento e local em que eu estava completamente despreocupada. Em 2012, com 15 anos, eu estava tranquila esperando para assistir uma aula de biologia quando senti vontade de ir ao banheiro. Aproveitei que o professor ainda estava procurando o material de aula e fui perguntar se podia ir ao banheiro, sem nenhuma preocupação em mente afim, estava em uma sala cheia e ele era meu professor. Quando cheguei já me aproximei perguntando e logo em seguida tomei um susto, ele colocou as duas mãos na minha nuca e me puxou para perto dele, pensei ‘O que ele está fazer?’. Olhou nos meus olhos com o rosto próximo demais ao meu e falou: ‘Não me pergunta nada não, que com esses olhos não consigo me concentrar em nada que você fala’. Aquilo me assustou, ele me soltou e fui correndo em direção ao banheiro, depois disso nunca mais pedi para sair na aula dele e até hoje guardo uma antipatia muito grande por ele”

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“Uma das situações mais bizarras de assédio que sofri foi ainda na infância. Eu tinha por volta de 9/10 anos quando ouvi uma conversa de um vizinho com um dos meus irmãos. Ele falava pra esse irmão como meu corpo estava mudando, como eu estava ficando bonita e ‘gostosinha’. Como se já não bastasse isso, ele orientou meu irmão esperar eu dormir e ser o primeiro a me tocar, porque não era justo que eu deixasse que fosse um desconhecido. Eu não sei o que ele respondeu, porque não aguentei ficar ali mais. Depois disso nunca mais consegui dormir tranquilamente”

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“Na adolescência eu era romântica e retraída, o que me fez adiar bastante meu primeiro beijo. Aos 15 anos, fui a uma festa de aniversário sem companhia e acabei me enturmando com uma menina. Em dado momento, um rapaz pediu para ficar com ela, e eu comentei que o amigo dele era bonito. Acabou que o amigo também me chamou para conversar. Eu não queria, mas cedi à pressão, por vergonha de dizer que era BV e que não sabia falar com meninos. No meio do papo, do nada, ele tentou me beijar. Eu neguei, ele insistiu, eu disse que ia embora e ele pediu para continuar a conversa. Me sentindo muito mal, corri para o banheiro e vomitei. O amigo dele ficava falando para eu ‘deixar de bobeira’ ou pelo menos explicar ‘por que não’, me deixando pior e acuada. Liguei para os meus pais e fui embora. Remoí isso por meses, em segredo, passando mal sempre que pesava nisso ou via o garoto. Criei um medo enorme de ir a festas. E ainda por cima eu me culpava. Por ter ido, por ter cedido à pressão, por tudo. Mas hoje eu sei que a culpa não foi minha”

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“No ensino médio, com apenas 15 anos, o professor de física da turma (que por sinal era casado com uma ex-aluna dele) fazia questão de falar do quanto eu era bonita e atraente. Eu me sentia constrangida, ficava com vergonha e nojo, não conseguia falar nada, só abaixava a cabeça. Ele fazia isso na frente da turma toda, na certeza de que nada aconteceria com ele. Outros alunos brincavam com a situação, diziam que eu ‘arrasava corações’ e a única coisa que eu conseguia pensar era na minha vontade de que aquele professor sumisse da escola. Ele chegou ao ponto de dizer que eu podia tirar nota 10 na matéria dele sem nem precisar fazer a prova. E tudo era com aquele ar de ‘brincadeira’”

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“Eu tinha 20 anos de idade e era estagiária produtora de uma rádio popular da minha cidade. Tive que trabalhar por oito meses diretamente no estúdio com um locutor das antigas, voz principal da emissora. Quase todo dia ele tentava encostar em mim, me abraçar agressivamente e eu não deixava. Ele ficava puto, me destratava, mas logo depois voltava ao assunto do meu corpo. Perguntou inúmeras vezes sobre a aparência e tamanho da minha buceta e como eu fazia sexo. Por eu nunca responder, questionava se eu não era lésbica. Eu me sentia muito mal, mas não sabia que era assédio, achava que eu era exagerada, chata. Todo dia eu ia trabalhar sem vontade, sem ânimo e com medo de ficar sozinha com ele no estúdio. E quando sua esposa e filha estavam por lá, ele era o homem mais respeitoso e sério de todos”

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“Eu nunca passei por um assédio, mas minha irmã contou que quando começou a trabalhar com 17 anos o ex-patrão dela passava a mão nela, puxava as golas das blusas para ver seus seios. Quando sentava perto dela para ensinar algo no computador, passava as mãos nas pernas dela e só depois de muitos anos ela veio contar isso para a família, porque ela tinha medo, medo dele falar para as pessoas que ela que estava se insinuando”

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“Perguntei a outra amiga minha aqui da escola. Com ela foi no ônibus, quando tinha 13 anos e estava na quinta série. Ela estava sentada e o homem esfregou a genitália em sua cara, estava ela e uma amiga da escola. O ônibus cheio, lotado e ela e a amiga quase sentaram no mesmo banco para fugir dele. Hoje ela diz que se fosse mais velha teria feito um escândalo, mas na época ela apenas se calou e afastou”

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“Eu tenho contato com um cliente, uma vez pedi um favor a ele, referente a umas notas que estavam pendentes. Depois que ele me mandou, eu agradeci e ele me disse assim: “Imagina, se precisar de uma ajuda para trocar a lâmpada do seu quarto, pode me chamar também que eu ajudo. Eu falei para ele que não precisava porque meu namorado já fazia isso pra mim, tipo eu tive que inventar um namorado pra poder dar um fora num cara”

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“Quando tinha 14 anos morava ao lado da casa da minha prima, que era recém-casada. Ela e seu marido eram bem mais velhos do que eu. Mas fui percebendo olhares estranhos dele para mim, perguntas sobre eu estar namorando, uma necessidade de puxar assunto. Eu não tinha nada para falar com ele e achava aquilo estranho da parte dele. Até que um dia, eu estava sozinha em casa e precisei ir ao quintal, ele apareceu, ficou me olhando de um jeito que me deu muito medo, ele quis saber se eu estava sozinha. Eu menti, disse que meu irmão estava em casa! Me apressei para dentro de casa, tranquei tudo e não sai mais, até minha mãe chegar. De todos os assédios que sofri esse foi o único que contei para ela. Ela disse que ele não “batia bem da cabeça” e eu fiquei lá, me achando a errada da história. Não sabia o que era assédio, nunca tinha escutado falar e só fui entender muitos anos depois: se você não está confortável, se o que ele diz ou faz te incomoda ou constrange, então, amiga, é assédio!”