José Mayer, o seu assédio não é sobre você

Globais na campanha "Mexeu com uma, mexeu com todas" (Chega de assédio)

Na última sexta-feira (31/03), a figurinista Susslem Tonani expôs o assédio sexual que sofreu por parte do ator José Mayer. O relato, publicado em um blog do jornal Folha de São Paulo, logo foi tirado do ar, mas ficou tempo o bastante para que internautas capturassem a tela e o espalhassem pela rede. A repercussão foi imediata. E, como em toda situação do tipo, ao mesmo tempo em que muitos discutiam a gravidade da situação, logo o brado dos defensores do privilégio masculino começou a se fazer ouvir.

Comentários na postagem no Facebook de uma das matérias sobre o assunto

Mas nesse caso, diferentemente​ de muitos outros, a discussão não se limitou aos espaços da internet. Várias artistas (principalmente globais) começaram a se posicionar a favor de Susslem, espalhando a campanha “Mexeu com uma, mexeu com todas”. Uma das primeiras a se manifestar repudiando o ocorrido foi a atriz Letícia Sabatella, ainda dando a entender que esse não teria sido a primeira atitude reprovável do ator.

Nessa sucessão de acontecimentos, o que veio a seguir foram reações que ora beiravam o absurdo, ora a dissimulação. Primeiro, José Mayer declarou inocência, alegando ainda que as ações descritas por Susllem não eram de seu feitio, e sim dignas de seu personagem Tião Bezerra, vilão na novela A Lei do Amor. Mesmo se houvesse prova de sua inocência, a falsa leveza com que o ator tratou o assunto revela uma realidade sobre a forma como o assédio é encarado em nossa sociedade: uma trivialidade.

Após o aumento da repercussão do caso, no entanto, Mayer voltou atrás na negação e divulgou uma carta aberta onde dizia que “errou” e que não tinha “a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar” com suas “brincadeiras machistas”. Sim, brincadeiras. Sem chegar a negar qualquer parte específica do depoimento de Susllem (que incluíam a descrição de um momento em que o ator tocou suas partes íntimas), Meyer disse que tudo não passou de uma suposta brincadeira de mau gosto. Ao minimizar as próprias ações, ele não apenas reforça a já forte naturalização dessa forma de violência, como ainda diminui a credibilidade dessa e consequentemente de outras denúncias.

Vale ressaltar que o conteúdo da carta, é uma sucessão de justificativas e tentativas de mudar o foco do assunto. O único momento em que ela se direciona propriamente​ a vítima, é ao se anunciar como um pedido de desculpas. Ainda assim, não é isso que seu conteúdo traz. Todo o tempo a única palavra que parece ressoar é “eu”. Chegando ao ponto inclusive​ de trazer este absurdo trecho: “A única coisa que posso pedir a Susllen, às minhas colegas e a toda a sociedade é o entendimento deste meu movimento de mudança”. O que em tese seria um reconhecimento do mal causado a uma mulher, não passa de uma tentativa de apaziguamento.

O foco de uma experiência de assédio não deve jamais ser o aprendizado do homem. Homens esses que não deveriam precisar assediar ninguém para aprender que não devem fazê-lo ou que o mundo é machista. E tratar essa situação puramente como um aprendizado pessoal, sem citar por um único segundo o sofrimento infringido por ele em uma ou talvez até mais mulheres, é covarde e desonesto.

Globais na campanha "Mexeu com uma, mexeu com todas"
Atrizes com a camiseta da campanha “Mexeu com uma, mexeu com todas”

Prosseguindo, muitos comemoraram a atitude da Rede Globo, de suspender indefinidamente o ator, já tomando um de seus papeis garantidos em uma próxima novela. Seja por não estarmos acostumados a ver punição para assediadores (principalmente em posições com certo poder), seja por isso supostamente criar um precedente para que novos casos sejam suprimidos. Eu, no entanto, não consigo ser tão otimista. Antes de tudo, é importante lembrar que a emissora não fez nem o mínimo, que seria demitir um ator que cometeu um crime. Para piorar, diretamente relacionado com a empresa (por ter sido contra outra funcionária) e em local de trabalho.

Além disso, o histórico de inconsistências da Globo não me deixa acreditar que isso seja um precedente nem dentro da própria empresa. E fica ainda mais difícil acreditar que uma ação específica teria tanto poder para mudar um problema estrutural. Aliás, algo já deu para perceber que não mudou. Mesmo após a confirmação do ato pelo próprio José Mayer, ainda é possível notar todo tipo de absurdo o público comum, com defesa do assediador e culpabilização da vítima.

Comentários na postagem sobre a carta aberta

Como eu sempre falo no blog, a luta não pode parar. Ao menos uma coisa me deixa esperançosa nessa repercussão. A ação das artistas em prol de Susllem mostrou o poder que nós mulheres temos ao nos unirmos. Por mais que nesse caso tenha sido necessária a voz de mulheres em alguma posição de poder, isso já é um avanço e um incentivo para que continuemos nessa jornada, nos apoiando e erguendo umas às outras. Que possamos cada vez mais nos fazer ouvir e surtir os efeitos que queremos e precisamos. E sem mais homens tomando a dor que nos provocam como suposto aprendizado para eles mesmos, sem mais impunidade para seus atos, sem mais naturalização de violência que nos atinge.

Ps: e reforçando a ideia de que a prioridade em casos de assédio nunca é o assediador, este post não traz imagens de José Mayer

Também recomento este texto da Carta Capital sobre o assunto: A carta de José Mayer mostra o fosso entre homens e mulheres

Tamires Arsênio
Me segue aí!

Tamires Arsênio

26 anos, mineira, jornalista por formação, escritora por amor e atualmente envolvida nuns 2930281 projetos (a maioria sobre protagonismo feminino). Feminista, bem bruxona mesmo. Corvinal até o tutano, mesmo que o Pottermore teime que não. Ainda esperando que o Doctor pare com a TARDIS à minha porta e me chame pra ser companion.
Tamires Arsênio
Me segue aí!

Últimos posts por Tamires Arsênio (exibir todos)

Comentários

comentários

One comment

  1. Impunidade masculina segue firme (e nós seguimos com medo) - Elas por Elas - Projeto Literário Elas por Elas – Projeto Literário

    […] se arma em defesa do agressor. Vide textos já postados aqui no blog, sobre os casos dos atores José Mayer e Johnny […]

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *