Sou eu mesma nua e crua em corpo e essência. E não há mais espelho para fechar meus olhos novamente.

Eu posei nua

E não há mais espelho para fechar meus olhos novamente

Para me olhar frente a frente, chegava ao meu reflexo com os olhos semifechados, abrindo-os lentamente como uma preparação psicológica para o objeto estranho que estaria por vir, logo ali.
Foto: Ana Luiza Calmon

     Eu nasci preta. Uma pretinha de 50 cm, cabeluda de fios escuros e olho castanho escuro. Meu pai, moreno, minha mãe, branca. Meu irmão veio loiro de olhos azuis, pálido e avermelhado. Diferente dele, eu sou a confirmação da miscigenação dos dois lados da minha família: indígena, negra, francesa, portuguesa e espanhola.

     Mas eu nunca estive em paz com o espelho. Para me olhar frente a frente, chegava ao meu reflexo com os olhos semifechados, abrindo-os lentamente como uma preparação psicológica para o objeto estranho que estaria por vir, logo ali. Sim, objeto. Como me reconhecer sujeito se tento moldar meu corpo como uma jarra de cerâmica?

     Eu queria ser loira. Magra, esguia e de olhos azuis. Ou então aquela morena de olhos verdes, sensual e de pele bronzeada. Lembro que queimava horas no sol e ia correndo para o espelho para checar meus olhos. Eu acreditava que o sol poderia transformar o castanho em verde cor de mel. Mas o espelho me mostrava a real. Ali só tinha eu comigo mesma. Espelho mostra corpo. E por corpo, ali se encontrava uma artista frustrada por não conseguir concluir sua obra. Sempre inacabada, sempre em construção.

Destruição.

     Meu corpo objeto queria ser de cintura fina, seios menores, braços fininhos, pele lisa e macia, rosto simétrico, bochechas menores, cabelos melhores e mais controlados. Moldada aos olhos e semelhança da menina moça sem referências. E quem disse que aquele moço bonito iria se interessar por mim? Eu não me achava merecedora de alguém tão legal e bonito assim, e logo empurrava para outra amiga, porque ela sim estava a sua altura.

Quando você se liberta e se enxerga de forma plena, não há reflexo que ofusque o seu brilho

    Sou a única prima de ambas famílias que é avantajada em todas as partes do corpo. Eu cresci ouvindo isso. Sempre quiseram minha bunda, sempre quiseram meus seios. Todos. Primas, tias, amigas, colegas, homens. Eu tava sozinha sem saber quem eu era. Quem fui?

     Foram 25 longos anos sem entender meu lugar na classificação da beleza feminina brasileira. Tenho uma boca grande, olhos expressivos, nariz gordinho, cabelos ondulados e frisados. Tenho seios, bunda e coxa grande, um quadril largo e uma cintura mediana. Não é um corpo magro, fino. É largo, é grande, é forte. Tudo concentrado numa estatura de 1,53 cm.

     Hoje sou sujeito. Determino as ações de meu próprio corpo e no espelho me enxergo de forma plena, completa. Percebo cada curva, linha, marca presente em mim e vejo que elas formam quem eu sou. Eu percebo a mim mesma. E amo tudo que sou. Meus seios, minha (feliz) barriguinha de chopp, meus braços gordinhos, minhas costas. Meu largo e radiante sorriso, meu queixo, minhas bochechas, meus olhos expressivos, minha sobrancelha. Minhas estrias, minha celulite, minhas espinhas. Meu cabelo misturado, de fios finos, ondulados, cacheados e lisos, com tons loiros, pretos e brancos.

     Quando você se liberta e se enxerga de forma plena, não há reflexo que ofusque o seu brilho. Eu posei nua. Tirei minha roupa e encarei olhos nos olhos a lente da câmera. Dancei, gargalhei, expressei meu charme e desenvoltura. Disse para mim mesma:

– Ana, você é tão bonita. Olha essa beleza que vem de você e reflete no seu sorriso. Tá sentindo? São raios de luz. Você é o Sol, Ana.

     Sim, eu sou o Sol. Eu sou a minha própria luz. Sou eu mesma nua e crua em corpo e essência. E não há mais espelho para fechar meus olhos novamente.

Sou eu mesma nua e crua em corpo e essência. E não há mais espelho para fechar meus olhos novamente.
Foto: Ana Luiza Calmon

 

Projeto Ocupa Corpos - Ensaio Ana Luiza
Foto: Thais Carletti