A Teta Racional e a Maternidade Desmistificada

Texto da nossa colaboradora Luana Krüger, Mestranda em Literatura pela UFPel.

O primeiro livro que recebi do Clube do Garimpo foi o “A Teta Racional” de Giovana Madalosso. Li em dois dias – um livro curtinho, mas cheio de conteúdo e vozes de mulheres. Um livro com dez contos e a primeira publicação da autora.

Imagem: Divulgação

As vozes vêm de vários lugares e vários momentos – mas eu, hoje, vou falar do que mais me tocou como leitora: a maternidade. Giovana conseguiu em diferentes contos mostrar a maternidade como algo sofrido, algo cansativo, e em alguns momentos, ruim. Não, não tem mãe abandonando filho, não tem mãe batendo no filho, não tem o estereótipo da ‘louca’, ‘dissimulada’ – não estamos condenando as mulheres que se sentem exaustas na maternidade, e por isso mesmo esse discurso não cabe aqui.

Imagina como é difícil para as mulheres serem mães: tu tens que estar sempre linda, feliz, amando o mundo com um ar sereno. Se teu filho chora, teu instinto tem que ser de correr para acalmá-lo. Se teu filho se suja, teu instinto deve ser limpá-lo (sem nojo, claro). PARA! Quantas mães não puderam dizer o que de fato sentem por medo de serem reprimidas pela sociedade? Quantas mulheres criam os seus filhos completamente sozinhas porque afinal de contas “quem mandou fazer?!”? Esse tipo de ideia e de julgamento já está mais que na hora de ser rejeitado. Esse tipo de julgamento, tem base em uma ideia de mulher que está determinada a ser mãe, que nasce para exercer uma função e que não tem opção de fugir para ser outra coisa. É como se ‘mulher e mãe’ fossem a mesma coisa. Beauvoir já falou sobre isso, vale a pena ler.

Nesse livro, há mulheres que sofrem e que mostram um lado da maternidade até hoje escondido para a sociedade e para mídia. Mostra a mãe indo ao banheiro com o filho no colo, sendo amamentado, e por mais nojento que isso pode parecer, não é! Isso mostra sim, o amor dela, a intenção de não deixar o filho sozinho ou chorando de fome. A narradora do conto “XX + XY” nos lembra que o corpo da mulher ainda é preparado para ser mãe precocemente e que carregar um bebê na barriga e no colo machuca o corpo – dói assim como amamentar. Uma mãe não dorme mais que duas horas continuas e isso irrita, isso causa desconfortos, isso dá vontade de chorar. Porque a mulher, antes de ser mãe, é humano.

Imagem: Divulgação.

Outra narrativa nos leva a relação entre mãe e filha, a preocupação e a possessão de algumas relações. Penso que isso se explica muito pela pressão que se tem na sociedade em fazer com que as mulheres cuidem (e muito bem) dos seus filhos. Essa possessão é quase uma imposição social, porque se algo der errado, ela é quem será a culpada. No conto “Suíte das Sobras” temos o questionamento: “Por que será que até amar tem que ser tão difícil?”. E não é?! E esse amor de mãe, mais difícil ainda. Nesse conto conhecemos mãe e filha fazendo uma viagem, e o que parece ser somente um passeio com alguns flashbacks, mostra muito mais. Mostra uma relação quebrada e sofrida – uma relação quase de fuga entre mãe e filha, que se restabelece quando alguns padrões são deixados de lado, quando os papeis sociais de mãe se suavizam.

O conto que dá título ao livro mostra uma mulher que se divide entre o trabalho e a maternidade. Algo bem comum hoje em dia, mas ainda assim, ignorado. “… trancada no banheiro da agência ordenhando” essa mulher separa o leite para o filho. Mas ordenhar é uma palavra forte! Parece referência aos animais! E não é assim?! E por que não pode falar assim? Ofende quem? A mãe idealizada da novela?! O pai?! Uma mulher, por muitas vezes, vive uma maternidade solitária, vira escrava desse momento. E no final das contas, o discurso não é que ela tem o que escolheu? Veja bem, não tem aqui nenhum tipo de compaixão! O discurso que recebemos todos os dias é assim, e dói, mas não só para mãe. Dói em todas as mulheres!

Giovana conseguiu desmistificar essa maternidade – e sim, deixou claro para mim o que de fato é a beleza disso tudo. Porque ninguém deve disputar mais disposição, a questão aqui é mostrar que a beleza disso tudo é a força das mulheres que ainda sozinhas na sociedade se mantém firmes. Giovana mostra que não é errado a forma como falamos sobre a maternidade e sim, a maneira como compreendem a maternidade, quase como um produto vendido pelas telenovelas com intuito de reforçar a feminilidade.

Eu, que nunca quis ser mãe, agora quero. Porque pela primeira vez, eu li algo que vez eu me identificar. Eu li o que minha mãe e as mulheres da minha vida nunca disseram, por medo de serem mais punidas do que já foram. Eu li o que eu sempre pensei e pela primeira vez eu senti que está tudo bem.

Deixo vocês com um book trailer do livro. Deixo também uma leitura!

Jade

Jade Arbo, 24, feminazi esquerdopata louca da problematização (mentira, sou pós-moderna cirandeira, mas vai ter crítica sim). Estudante de Bacharelado em Letras, interessada em feminismo, filosofia, história e o gênero dos anjos.

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