Dor de dente

Foto: Acervo pessoal

 

o canal que lateja nos fundos de minha boca pede socorro.
ele bate, late – só não mia!

todo santo dia,
me lembra que tem um buraco em minha boca.
que antes era cárie
agora é fundo do poço

todo santo dia,
o canal late
bate
pulsa
lembra que não tem tempo pra deixar pra depois

todo santo dia,
o canal me lembra que nem água morna
com sal e vinagre
vai tirar de mim sua dor

todo dia tem dor.

o canal cava cada vez mais pro poço negro
todo dia a dor do dente me lembra que o dia ainda vai chegar.

 

Poliamor e o Feminismo

Imagem: Sucesso nos Relacionamentos

Com toda a discussão sobre liberdade, escolhas, relações abusivas, denúncias, machismo, é quase impossível não falar sobre Poliamor.

Primeiro, gostaria de deixar claro que se trata de um ponto de vista e opinião pessoal. E a liberdade para contrapor sua opinião é assegurada aqui nos comentários.

O Poliamor é muitas vezes confundido com o relacionamento aberto. Mas são formas de se relacionar bem distintas.

Seria o Poliamor um relacionamento intimo e simultâneo entre três ou mais pessoas, de forma respeitosa, responsável e consciente de todos os envolvidos. Se trata de uma relação com vínculo afetivo, e não somente sexual ou casual. E é essa intimidade e compromisso que o difere do relacionamento aberto ou livre, que em sua grande maioria é uma busca por outros parceiros sexuais apenas.

A relação com base no Poliamor requer uma certa evolução, um autoconhecimento e autocontrole. Uma relação onde não há espaço para o ciúmes, as comparações, controle sobre a vida do parceiro ou exigências em relação a sua agenda ou disponibilidade. Há um acordo entre as partes, onde o respeito, a sinceridade, o amor e a estabilidade emocional são peças fundamentais para que a relação flua e seja prazerosa.

Mas onde entra o feminismo?

Justamente por ser uma relação não exclusiva que o feminismo tem uma preocupação para com as pessoas envolvidas, principalmente por essa relação ter potencial para servir como desculpa e apoio de um relacionamento abusivo e de infidelidade.

O mais importante antes de entrar em qualquer relacionamento é desconstruir a visão de amor romântico padrão das novelas e filmes.

Você precisa se conhecer, saber como seria lidar com seu parceiro ou parceira se relacionando com outra pessoa, com o seu conhecimento. Como vc lidaria com o ciúmes. Qual seria seu nível de satisfação nessa relação. Tudo deve ser questionado.

Você não pode e não deve se relacionar com o intuito de salvar uma relação monogâmica em crise, muito menos se anular para satisfazer a outra parte. Deve ser uma escolha mútua e negociável.

Entenda que uma pessoa infiel é diferente de uma pessoa com espírito livre, e que o pilar mais importante de toda relação, poli ou monogâmica, aberta ou livre deve ser o respeito.

É preciso avaliar se está pronto (a) para algo semelhante e se isso será prazeroso para ambos. A relação deve ser fluida, não um sacrifício. Tudo deve ser previamente discutido, consensual, garantindo a integridade e a segurança dos envolvidos.

Dessa forma o Poliamor exige um olhar para si, uma autoestima, uma desconstrução.

Questione- se, você se adaptaria à essa forma de relação? Você conseguiria controlar ou extinguir o ciúmes, as cobranças, saber do envolvimento sexual do seu parceiro ou parceira com outras pessoas?

Lembrem-se de se respeitar. De se cuidar. Não se anular em função de viver uma relação que não é prazerosa para você.

Não se intoxique para beneficiar outra pessoa.

 

 

impunidade

Impunidade masculina segue firme (e nós seguimos com medo)

A violência contra a mulher é um mal sistêmico ao qual absolutamente todas estamos sujeitas. A configuração de nossa sociedade é o que nos empurra para essa situação, onde as que não sofreram ainda alguma situação de violência de gênero aprenderam a conviver com o medo dela.

E a forma como são tratados os agressores não apenas cria sentimentos de injustiça e impotência, como também reforça a insegurança. No caso do estupro, por exemplo, estima-se que apenas 3% das denúncias resultam em condenação no Brasil. TRÊS-POR-CENTO. É importante lembrar que calcula-se também que apenas 35% dos estupros no Brasil são notificados. Isso significa que 65% dos casos de estupro não têm a menor chance de condenação.

Impunidade
Imagem: Istoé

Em meio a isso, uma sugestão de lei em tramitação no Senado Federal torna crime hediondo e inafiançável a falsa comunicação de estupro. Atualmente ela se encontra aberta para votação do público, com 21.255 votos a favor e 20.297 votos contra.

Para uma comunicação de crime ser considerada falsa, é necessário muito pouco. Os números acima já demonstram o quanto nosso sistema ainda precisa evoluir para agir adequadamente perante casos de violência sexual. Com nosso judiciário atual, uma denúncia considerada falsa não necessariamente é falsa.

Se essa lei for aprovada, ao não conseguirem reunir provas suficientes (que muitas vezes não existem, pois nem toda violência sexual deixa marcas físicas), além do medo de ver seus agressores impunes, mulheres abusadas também deverão temer a cadeia.

A impunidade masculina conta ainda com ferramentas poderosas para sua própria manutenção. Quanto mais alta sua posição na pirâmide social, maior a chance de um homem não pagar pelos seus atos. E a ausência de penalidade não aparece apenas no âmbito judicial, mas contempla todos as esferas da sociedade.

Sempre que um caso de assédio, estupro, violência doméstica ou qualquer outra opressão de gênero repercute na mídia, uma boa parcela da população se arma em defesa do agressor. Vide textos já postados aqui no blog, sobre os casos dos atores José Mayer e Johnny Depp.

São tantos exemplos, alguns já repetidos diversas vezes, mas as listas crescem cada vez mais. Assédio na Playboy. Abuso e assédio sexual por Cassey Affleck. Agressão e violência psicológicas televisionadas em reality show. Goleiro Bruno. Isso, para citar apenas alguns dos casos que repercutiram este ano. E ainda estamos em abril.

 

Da esquerda para a direita: André Luís Sanseverino e Marcos Aurélio de Abreu (presidentes da Playboy), Casey Affleck, Marcos e Bruno. (Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio via Canva)

 

Os dois últimos devem ser comentados aqui. A espetaculização de um caso de violência contra a mulher marcou o caso do Big Brother Brasil, em que Marcos (37 anos) agrediu diante de câmeras sua parceira Emily (21).

Providências tomadas pela Globo? Nenhuma. Ao menos não até que a polícia do Rio de Janeiro começar a investigar o caso e determinar a expulsão do participante. Isso, pouco depois da repercussão do caso José Mayer, que resultou apenas no afastamento do ator. Novamente, reforçando: a emissora não fez nem a sua obrigação.

O público também tem a sua parcela de culpa na criação do circo em torno da situação, já que é a audiência que guia as ações da emissora e sua insistência em sustentá-la. Importante lembrar que, inclusive, Marcos teve a preferência do público para ficar no programa mesmo depois que as agressões viralizavam pela internet, e à época de sua expulsão, a hashtag “forcamarcos” chegou aos Tredding Topics no Twitter.

Para fechar (ao menos por enquanto), no dia 22 de abril, Marcos publicou uma carta aberta para Emily em que se colocava como vítima da situação, inclusive a culpabilizando por denunciar sua agressão. E além de ele continuar recebendo apoio, internautas agora caem na mesma linha de raciocínio e acusam Emily de falsa e aproveitadora, espalhando a nova hashtag “emilyjudas”.

Já sobre o goleiro Bruno, caso antigo que voltou a receber atenção este ano com a soltura do jogador, dois pontos. O primeiro: acusado de mandar matar e ocultar o corpo da ex-companheira Eliza Samúdio (que estava grávida), Bruno tem fã-clube, assédio (positivo) de público em busca de selfies e autógrafos e foi contratado pelo time Boa Esporte Clube. Tratado como celebridade por um número muito maior de pessoas que se esperaria de alguém que ainda nem mesmo pagou pelo seu crime.

Segundo ponto: o Boa amargou a péssima repercussão da contratação, perdendo patrocinadores. Bruno voltou à prisão por decisão STF. É um ponto positivo, sim, mas que infelizmente não apaga todos os pontos negativos que já vivenciamos. É sempre bom lembrar que cada vitória conta, mas uma sociedade machista sempre nos colocará em risco.

Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” Simone de Beauvoir

É por isso que é tão importante não nos silenciarmos. Para não deixarmos que nossos direitos nos sejam tomados e para lutar para que agressores sejam punidos. E outra coisa que eu sempre insisto quando reclamam da repercussão que damos para esses casos, como se “não soubessemos perdoar”:

Muitos deles têm como única punição a repercussão negativa espalhada por nós. Se você é um dos que nos criticam, por favor: nos deixem falar. Já é tão pouco comparado com o que realmente é justo, e querem nos calar. Nos deixe ao menos fazer algo, mesmo que seja pouco, para tentar equilibrar essa balança. Porque o mundo está cheio de advogados para os homens, contra muito poucos promotores. E isso não é, de forma alguma, justiça.

Um amor intenso e livre como eu

 

 

(Imagem: Tumblr)

Sabia que a cada dia que passa eu me torno mais apaixonada por você? Cada detalhe seu me encanta, a sua cara séria enquanto dirige, a sua boca bem desenhada pelo meu corpo, a maciez da sua pele contra a minha, a delicadeza dos seus traços, o cheiro suave de perfume do seu cabelo e contrapartida ao teu cheiro de homem do restante do corpo.

O seu beijo amoroso na minha bochecha até o seu beijo faminto quando me pega com desejo.

Me sinto perdida nos teus braços,  na ânsia de naufragar em você inteiro e de me agarrar nos teus cachos como uma tentativa de provar a mim mesma que tudo isso não é um sonho.

Sinto você em mim quando fecho meus olhos, e meu corpo estremece quando te vejo parado em meu portão com esses olhos profundos de menino.

Eu não me encontro em outro abraço,  nunca me encontrei em outro beijo e não sei lidar muitas vezes com as neuroses que o medo de te perder me traz.

Quero você como meu menino, meu homem, sem metades. Não me tire dos teus braços e nem dos teus pensamentos, preciso de você desesperadamente como uma necessidade básica, como um fruto maduro que que não aguenta o próprio peso em si e se derrama pelo o chão.

Teu peito é o meu chão, a segurança que eu preciso para continuar, para não me derramar, para não chegar ao fim.

Eu te amo por tudo aquilo que se atreve a ser teu, tudo que não te pertence, tudo que te constrói. E te amo mais ainda por esse sentimento não me podar de ser eu mesma.

Sobre ser exatamente como as outras

Em algum momento das nossas vidas, as seguintes frases já passaram pelos nossos lábios:

 

“Eu prefiro ter amigos homens.”

“Não consigo ter amizade com outras mulheres.”

“Homens são amigos mais sinceros, mulheres são muito falsas.”

“Na minha turma, sou como um dos caras.”

 

Durante alguma fase da infância ou adolescência, um somatório de fatores da socialização pela qual passamos dá muito errado, e nós começamos a ver o nosso gênero com desdém, com aversão. Nós queremos nos assimilar ao masculino, absorver o masculino de alguma forma, para assim absorver também suas vantagens, seus privilégios, seja copiando seus hábitos, seja encarnando os hábitos da feminilidade que mais os agrada.

 

Nós dizemos “eu não sou como as outras”, nós gostamos de ouvir dos lábios masculinos que somos “diferente das outras”, nos sentimos seguras quando os ouvimos contar da ex “que era louca”, e evitamos cometer todos os “erros” que a ex cometeu: ser chata demais, exigente demais, louca demais. Nós falamos mal de outras mulheres para nos sentirmos mais bem-quistas pelos homens, mais integradas em sua sociedade.

 

Em algum momento, se temos sorte, percebemos que ao invés de sermos diferentes, somos exatamente como as outras. Eles riem da gente como riem das outras. Da mesma forma que eles objetificam, menosprezam, diminuem as outras, eles objetificam, menosprezam, diminuem a nós e às nossas irmãs, de sangue ou não. E lá estamos nós, por um motivo ou outro, um medo ou outro, sendo coniventes.

 

“O opressor não seria
tão forte se não tivesse cúmplices
entre os próprios oprimidos.”
Simone de Beauvoir

 

O que nos salva? Nós mesmas, ao estendermos a mão umas às outras.

 

Há algo de muito poderoso em buscar cercar-se de mulheres. Percebemos que compartilhamos de muitos dos mesmos medos, que passamos por muitos dos mesmos constrangimentos, mas ao mesmo tempo abrimos o nosso olhar para outras partes de suas vivências femininas que podem ser muito distintas das nossas. Ao nos cercarmos de mulheres, temos a oportunidade de vê-las como pessoas completas, com seus defeitos e qualidades, seus privilégios e opressões, e assim, em contraste com as vivências delas, reconhecer os nossos próprios privilégios.

 

Ao convidá-las a ocupar o mesmo espaço que conquistamos, nos engrandecemos, nos tornamos mais do que nós mesmas, nós nos tornamos exatamente como as outras em toda a nossa diferença.

 

Para mim, essa certeza tem se tornado cada vez mais forte, e cada vez mais parte da forma como escolho viver minha vida. Escolhi me cercar de mulheres, escolhi me deixar permear por elas, por suas vivências, por seus conhecimentos, e oferecer de volta o pouco que tenho: algum acesso, alguma instrução e diversos privilégios, dos quais não posso me livrar pois foram impregnados em mim, mas dos quais apenas saberei fazer melhor uso se me deixar instruir, se me obrigar a ouvir.

 

A maioria de nós já se sentiu bem, se sentiu mais amada, mais segura, mais feliz por não ser como as outras. Mas esse é um bem-estar emprestado, ilusório, e que compensa desconstruir. Que a presença de outras mulheres no seu grupo de amigos não seja uma ameaça, mas uma adição. Que ser a única mulher no seu ambiente de trabalho ou de estudo não seja uma vitória, mas um sinal de que algo precisa mudar. Que busquemos nos cercar de mulheres sempre, e que isso nos faça entender melhor suas lutas, a respeitar melhor seus espaços e a ceder a elas, quando possível, os nossos.

 

Dedico esse post às mulheres que me cercam e que me engrandecem, em especial ao incrível e diverso grupo de deusas que compõe o Elas por Elas, e à Luana, que compartilhou há alguns dias esse poema de abrir os olhos.

Poema: Rupi Kaur

Essa beleza de corpo

Projetos fotográficos exaltam a diversidade do corpo feminino

 

Ocupa Corpos – Foto: Thais Carletti

 

 

– Você ama o seu corpo do jeito que ele é?

 

Começar a matéria com uma pergunta dessas não tem como intenção te afastar das linhas a seguir. Na verdade, é um questionamento, que essa autora sempre procurou fazer e percebeu que todas as respostas, suas e de algumas amigas, são negativas. As imperfeições estão lá e sempre são apontadas. Estria, celulite, espinha, assimetria, gorduras localizadas, coxas finas ou grossas demais, pouca cintura, braço largo, pouca bunda, muito seio – nada belo o bastante para se admirar.

Mas se são as imperfeições que nos definem, deveríamos nos enxergar naturalmente belas. Afinal, não há perfeição. “O que a mídia impõe para a gente são corpos esculturais de revistas. O padrão é absurdo, impossível de alcançar, até por que essas imagens vinculadas não são corpos reais de mulheres, mas sim vítimas de um tratamento de imagem irreal”, afirma a fotógrafa Thais Carletti.

Foi através desse questionamento, sobre objetificação da mulher e os casos de revenge porn, que Thais criou, em 2015, o projeto fotográfico Ocupa Corpos. Com a proposta de valorizar e refletir sobre a libertação sexual e corporal, a fotógrafa produz ensaios nus de mulheres das mais diversas imperfeições. Não há correção ou camuflagem. É o corpo ocupando seu espaço, a mulher presente como ela é.

Outro que surgiu no mesmo ano com a proposta de libertação do corpo feminino, também em Vitória (ES), é o Corpos Libres, da curitibana Juliana Guariza. Na época em que fixou residência na capital capixaba, Juliana criou o projeto inspirada em suas amigas locais – uma delas, inclusive, a própria Thais Carletti –, voltado para esse outro olhar mais generoso com o próprio corpo. “Minhas amigas realmente transformaram minha ideia do que é ser mulher em sociedade. Além delas genuinamente se apoiarem entre si, elas não pediam desculpas por serem o que elas são. Elas não se encaixam em padrões e lutam pelo direito de ser o que elas quiserem ser. Para mim essa autenticidade é inspiradora”, reflete.

 

 

Libertar-se
A naturalidade e o conforto da modelo são prioridade para ambas fotógrafas. Juliana busca ambientes acolhedores e externos, onde a luz natural seja trabalhada – “acho que combina com essa natureza selvagem da mulher”. A espontaneidade e a identificação com o espaço também importam no momento do ensaio, “para se sentir confortável com as fotos e mais importante consigo mesmas. É uma espécie de conversa com o próprio corpo, e o que eu faço é registrar essa conversa”, explica Thais Carletti.

 

 

 

Nos ensaios, vemos mulheres de todas as formas, tamanhos e perfis. Não há padrão e nem restrição, apenas o libertar-se. De tantas belezas femininas que suas lentes registraram, as fotógrafas não carregam apenas a experiência profissional, mas também subjetiva, de mulher para mulher, Afinal, conforme colocado nas primeiras linhas dessa matéria, amar nosso corpo do jeito que ele é não é uma realidade majoritária. Mas o que é a beleza feminina?

“Autenticidade. Estar confortável na própria pele. E todas as pequenas peculiaridades do corpo de cada uma que as fazem únicas. Eu percebo que essas mulheres que fotografei têm tem muita vontade de abraçar e amar suas imperfeições. São elas que as fazem únicas. Falo também por mim mesma, eu precisei me libertar de muitas questões que eu tinha com meu corpo para ter mais sensibilidade para fazer esses retratos“, conta Juliana Guariza.

“Todas as vezes que eu fotografo eu aprendo principalmente a me relacionar melhor com meu próprio corpo. A gente precisa se amar muito e sempre, e com todas essas mulheres eu repenso que tipo de relação eu tenho comigo mesma. E o objetivo do projeto é criar essa discussão: é preciso falar de nudez, é preciso falar de feminismo, é preciso naturalizar e amar os corpos”, Thais Carletti. Amar os corpos. Amar nosso corpo. Amar-se. Uma atividade tão complexa que requer exercícios diários. Uma vez que que você se liberta, no entanto, você enxerga. É uma beleza de corpo. E é só seu.

Ocupa Corpos e Corpos Libres são projetos autorais que seguem em atividade no ano de 2017. Visite a página de cada e conheça mais:

Ocupa Corpos
Instagram: @ocupacorpos
https://ocupacorpos.wordpress.com/

Corpos Libres
Facebook / Instagram: @corposlibres
https://corposlibres.tumblr.com/

 

 

Leitura necessária: Chimamanda Ngozie Adichie

(Foto: Divulgação)

 

Chimamanda Ngozie Adichie  é uma das escritoras nigerianas mais influentes e jovens da atualidade. Sua obra tem um enfoque feminista didático responsável por atrair cada vez mais a atenção das Africanas. Trata a importância dos temas de extrema importância com a leveza da literatura, sua escrita envolve ao mesmo tempo que mostra a partir de suas vivências os desafios sociais que a mulher vive na Nigéria de antes e de agora.

 

Conheça um pouco de sua obra, que já foi traduzida para mais de trinta línguas:

 

Meio sol amarelo: O livro agradou tanto que virou filme, conta a história de  irmãs gêmeas que não são nada parecidas. Enquanto uma abandona os jogos sociais de sua influente família para dar aulas e viver a revolução, a outra participa de todas as situações possíveis para se favorecer. O livro ilustra bem a divisão social da Nigéria, inclusive nos tempos da ditadura.

Meio sol amarelo, Companhia das letras

Americanah: Conta a história de amor entre dois jovens nigerianos em meio ao cenário da ditatorial. A menina passa por cima de todos os preconceitos e consegue estudar em uma das mais aclamadas universidades Dos EUA, porém quando retorna às suas raízes já como uma conceituada blogueira, se choca com a mudança do cenário e o que deixou para trás.

O livro vai bem além de uma história de amor, ele faz uma crítica social importantíssima de maneira inspiradora.

 

Americanah, Companhia das letras

Hibisco Roxo: Narradora e personagem, Kambili conta a sua história mostrando as opressões que sofreu por seu pai que abominava as raízes nigerianas e idolatrava o segmento católico, tal opressão religiosa o levou a negar o próprio pai e sua outra filha, porém ao decorrer da história a jovem se apaixona por um padre, e sua falta de perspectiva faz com que ela seja obrigada a sair da Nigéria.

Hibisco roxo, companhia das letras

Sejamos todos feministas: Uma palestra da autora que virou livro, e trata da importância da igualdade de gêneros, a partir de situações que ela mesma viveu durante o decorrer da sua vida em uma nigeria machista;  além de contar a experiência de outras mulheres e expor os julgamentos que sofreu.

Um livro super curtinho e gostoso de ler, fundamental para quem quer compreender um pouco mais sobre igualdade.

Sejamos todos feministas, companhia das letras

Extremamente inspiradora, Chimamanda tem uma escrita necessária, inclusive um de seus discursos foi musicado pela Beyonce, (https://www.youtube.com/watch?v=IBe9Vtodzg4)

Uma obra útil apenas para  maior conhecimento da Nigéria, mas sim livros  que mostram os desafios de ser mulher em países de construções machistas e preconceituosas, valorizando e apresentando o poder do feminismo e da liberdade de qualquer preconceito.

Site oficial: http://chimamanda.com/

Outros jeitos de usar a boca de Rupi Kaur – (des)fazendo os nós na garganta

Texto da nossa colaboradora Luana Krüger, Mestranda em Literatura pela UFPel.

 

O livro, originalmente publicado com o título milk and honey da escritora e artista Indiana Rupi Kaur, traz a cada poema um soco e, por vezes, um abraço.

Imagem: divulgação

Éle propõe ao leitor quatro momentos: a dor, o amor, a ruptura e a cura. Em cada um deles encontramos histórias de família, de relacionamentos, histórias que doem em mulheres, histórias que falam daquele relacionamento abusivo disfarçado de amor, daquela ruptura que antes de mais nada é um acordar para um mundo onde conseguimos perceber o abuso psicológico que sofremos diariamente e que por mais libertador que seja, não deixa de ser sofrido. Então vamos lá, vejamos mais detalhadamente o que ela está dizendo e se tu realmente sente esses socos que eu falo.

Todas nós já sabemos que ninguém precisa ser estuprada para sentir o que é a dor de um estupro, além disso, o estupro é diário e, infelizmente, poucas são as mulheres que nunca sofreram nenhum tipo de abuso (ou seria – nenhuma?!). No segundo poema temos:

“o primeiro menino que me beijou

segurou meus ombros com força

como se fossem o guidão da

primeira bicicleta

em que ele subiu

eu tinha cinco anos” (Kaur, 2017, p.12)

Não chegamos ao final, mas aí já temos bastante discussão e questionamentos – afinal de contas em que momento meninos aprendem que ‘podem’ nos segurar dessa forma?, e que lugar é esse que vivemos, e que parece não ter fronteiras, onde o corpo de crianças é sexualizado?

Não é bonitinho ver o menininho agarrando a menininha, é deprimente. Isso é o início da iniciação machista, isso é o inicio da opressão de mulheres e também do silenciamento de muitas delas, que se sentem perdidas e amedrontadas com a normalidade social de um abuso.

“ele tinha cheiro

de fome nos lábios

algo que aprendeu com

o pai comendo a mãe às 4h da manhã” (Kaur, 2017, p.12)

Esse cheiro de fome, lembra esse lado animalesco masculino, já discutido por muitas feministas e nada admirável. Não precisamos ir muito longe pra ver homens achando bonito ser um animal, eles se comportam assim.

 “ele foi o primeiro menino

a ensinar que meu corpo foi

feito para dar aos que quisessem

que eu me sentisse qualquer coisa

menos que inteira

 

 e meu deus

eu de fato me senti tão vazia

quanto a mãe dele às 4h25” (Kaur, 2017, p.12)

Sentir-se vazia, parece que é algo que só pertence à mulher, porque não é só o poema que diz isso, todas nós em algum momento sentimos. Há muitos homens que dentro de famílias, com suas mães sofrendo, reproduzem o mesmo com mulheres na rua. Eu não estou dizendo que eles não sofram, mas estou dizendo que a ideia de empatia entre os dois sexos não parece ser uma via de mão dupla, e se a mãe precisa ter compaixão com o filho, esse mesmo não precisa ter com ela, muito menos compreendê-la antes mesmo de mãe, como mulher.

No amor, ela diz:

“toda revolução

começa e termina

com os lábios dele” (Kaur, 2017, p.48)

Achou bonito? Romântico? Olha, numa primeira leitura é, e eu realmente acho que muitas pessoas podem romantizar tal poema, mas tu já parou pra pensar no significado da palavra revolução? E uma revolução ser motivada por um ‘ele’ e acabar pelo mesmo ‘ele’ não parece ser algo de um universo masculino e dominado por um homem?

Eu não acredito que a revolução tenha que começar e terminar por um ‘ele’, um ‘ele’ que parece ser tão poderoso a ponto de mandar eu agir e parar. Homem não tem que mandar e amor não deveria ser motivado e decidido atráves de um – muito menos um ‘eu – homem’ que historicamente não tem provado muitos atos de amor genuíno pelas mulheres. E falando nesse amor a eu-lirico diz:

“ele só sussura eu te amo

quando desliza a mão

para abrir o botão

de sua calça

 

é aí que você tem

que entender a diferença

entre querer e precisar

você pode querer esse menino

mas você com toda certeza

não precisa dele” (Kaur, 2017, p.86)

Uma ruptura libertadora, afinal de contas, não é facil perceber e se descobrir sendo usada diariamente e abusada emocionalmente. Quantas mulheres já ouviram uma palavra de carinho e logo em seguida um toque malicioso? Muitos homens usam disso para ter o que querem, usam isso, principalmente, em um momento de fragilidade a mulher. Os homens definitivamente não são burros – são maldosos, e pra isso, muito espertos -, mas a ruptura deixa claro que não vamos aceitar esse tipo de comportamento, pois:

 “o amor fez com que o perigo

em você parecesse seguro” (Kaur, 2017, p. 104)

Mas agora não parece mais! E por fim, a cura:

“perder você

foi o que levou

a mim mesma” (Kaur, 2017, p.174)

Aqui ela mostra o quanto juntas podemos ser mais fortes:

“você olha pra mim e chora

tudo dói

 

eu te abraço e susurro

mas tudo pode curar” (Kaur, 2017, p. 181)

Imagem: divulgação

Além de trazer a perspectiva da cura desses ditos ‘amores’, ela também traz a cura atráves da libertação dos padrões sociais que fazem as pessoas achar que devemos ter sempre alguém e que

somos inimigas umas das outras.

Esse livro abre espaço para questionamentos, com poemas curtinhos Kaur nos leva a olhar não só com olhos, ela traz essa sororidade que tanto precisamos, ela traz a empatia que devemos exercer e mostra com toda lírica que esse espaço (dentro e fora da gente) não é determinado por homens e pelos padrões sociais machistas que ainda existem.

E a cura, essa cura que faz com que prestemos atenção em quem realmente importa, nós – e aqui o ‘nós’ é feminino, porque eu falo de nós mulheres.

Resiliência: A arte de sobreviver

O dia aberto me chama através da porta, mesmo eu não querendo ir. Ouço uma voz interna dizendo que eu preciso continuar, mesmo sabendo que essa voz interna é um pedaço meu, não tão quebrado quanto o resto, eu escolho ignorar. Sério, ver pessoas? Explicar o inchaço nos meus olhos ou repetir que eu não estou fumando, apesar dos olhos vermelhos? Não, obrigada. Me parece um cansaço mental totalmente desnecessário e que não irá ajudar a me manter de pé. Apesar que, nessa altura do campeonato, a única pessoa que pode me manter de pé sou eu mesma.

Mas talvez amanhã.

Mesmo sem querer, me lembro de todas as outras vezes que me tornei melhor amiga da minha cama, enquanto perdia peso e via meu cabelo se desmanchar em meio as cobertas. As frases prontas choviam como folhas secas flutuando com o vento de outono e, na mesma pegada das folhas secas, eu não me importava. Eu não me importo.

“São coisas da vida”, “Aconteceu comigo também”, “Você precisa continuar” e, o que eu mais sinto vontade de jogar uma bazuca, “Não precisa ficar assim”. “Não precisa”?

O riso irônico se mantém fixo no meu rosto, mas me jogo do outro lado da cama enquanto aquela voz reaparece dizendo que eu preciso continuar. Ok, talvez eu precise. Talvez tudo isso seja mesmo coisas da vida, talvez tenha mesmo acontecido com outras pessoas, talvez eu não precisasse ficar nesse poço infinito de tristeza e vontade de chorar eternamente, mas talvez esse tenha sido o molde que eu criei para sobreviver. Talvez essa seja a minha forma de ser resiliente.

Em um devaneio longo e detalhado, todas as coisas ruins passaram pela minha cabeça e, logo em seguida, veio a mulher que eu me tornei com o que a vida jogou no meu colo. Assumo que não escolhi nem metade daquilo tudo, mas era o que tinha, então tinha que ser feito alguma coisa. Minha cabeça foi invadida por situações de quase morte, divórcios, perdas, lutos e, principalmente, luta. Luta essa que, no meu caso, não foi nada físico. Luta essa que me ensinou a valorizar noites de sono e comidas gordurosas nos fins de semana. Que me ensinou a falar, a abraçar, a não fugir e, a segunda palavra mais linda do mundo, empatia. Se colocar no lugar dos outros, usar o sapato dos outros, respeitar a escolha dos outros.

Talvez a vida tenha, sim, jogado várias merdas a esmo em cima de mim e, talvez, eu tenha mesmo fugido para o meu lar doce lar – minha cama –, mas talvez eu só precisasse de tempo. Não de cigarro ou de pessoas sem empatia vendendo frases prontas na fila do pão. Talvez eu só precisasse de tempo.

Fecho os olhos, respiro fundo e, ao me preparar para enfrentar sabe-se lá o que estava por vir, eu sinto seu cheiro. Forte, presente. Por vários momentos, eu respirei só para continuar sentindo seu cheiro, e parecia um sinal, sabe. Parecia um “Eu sempre vou estar aqui.” seguido de um “É hora de voltar”.

Você tem razão.

Chuto a coberta, abro a janela, esfrego a cara e vejo suas coisas enquanto sento na cama. “Eu te amo” é a primeira coisa que eu penso.

Amor: a palavra mais linda do mundo.

E o que você faz com o que a vida fez de você?

Silêncio na tarde das mulheres

Foto: Ana Luiza Calmon

 

até outro dia, outro lugar,
eu daria tudo para não ver você calado, pra ver o que há.

é que eu passei um mês inteiro sem te ver, meu bem!
e sem compreender,
eu tava doente do peito, do coração.

o olho do amor desconhece a magia,
mas quem manda em mim sou eu!

por isso eu quero pedir para você se mandar,
quem sabe até outro dia, outro lugar.

permanece o silêncio na tarde das mulheres,
silêncio porque eu quero passar,
porque está passando.

eu escuto Sérgio Sampaio para cicatrizar as feridas.