Mariana

– Cês ouviram da Mariana?

– Que Mariana?

– A Mariana Castro, do terceiro semestre.

– Não, que foi?

Imagem: Gregory Crewdson

Contou as pílulas. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Será que isso dava? Tinha que dar, ela pensou.

– Tá no hospital. Tentou se matar, parece.

– Mentira! A Mariana?

– Pois é.

– Pai? – Começou com cautela, torcendo as mãos.

– Hm.

– Dá pra falar agora?

– Tô saindo já. Que foi, Mariana?

– Eu acho que eu tô com um problema.

– Tem que ser agora, filha?

Ficou em silêncio.

– Anda, Mariana.

– Nada não, pai. Pode ir.

 – Caramba…

– Pois é. Quem vê não diz, né?

Não tinha gaze em casa. Nunca tinha nada em casa, capaz que ia ter gaze. Teve que colocar papel higiênico entre a pele das coxas e o jeans da calça pra não roçar nos cortes. 

– Não, nem a pau.

– Bom, teve aquela vez… Lembra? Na aula de semiótica?

Sentiu um nó na garganta, um aperto. Quando a cena começou ela desviou o olhar da tela, mas ainda dava pra ouvir os gemidos. “Não, não”, Grace implorava, mas óbvio que ninguém fazia nada. Voltou a olhar pra frente quando achou que a cena tinha terminado, mas ela seguia, em silêncio. Chuck em cima dela. A ausência de cenário era uma estratégia simbólica, a professora havia dito. Era como se todos soubessem. E todos sabiam. E ninguém fazia nada. Que merda. Saiu da sala correndo, deu sorte de chegar a tempo no banheiro feminino, abrir a tampa do vaso e vomitar.

– É, aquilo foi estranho. E depois ela não voltou mais, né?

– Não, pra essa cadeira não.

– Teu pai e eu te damos tudo, Mariana! Teu pai tá com dois empregos pra pagar essa tua faculdade, que nem dinheiro vai dar, e tu me roda numa cadeira pra gente ter que pagar de novo?

– Desculpa, mãe. Não vou mais rodar, juro.

– Desculpa não adianta. Desculpa não vai pagar a mensalidade.

– Desculpa…

– Cês acham que tem alguma coisa a ver?

– Claro que não. Quem é que se mata por causa de filme?

– Sei lá, vai saber. Nem conheço a guria direito.

Faltou ao estágio naquela manhã. Eles ligaram, mas ela não atendeu. A faculdade era longe, a porta era longe, o telefone era longe.

– Anda, Mariana! – a mãe bateu na porta.

– Eu tô doente, não vou hoje.

– Doente do quê, menina? Tá doente nada. Ontem fui trabalhar com 39 graus de febre e tu fica aí nessa cama?

– Roberto pegou ela, cês sabiam?

– Roberto? Sério?

– Sim. Comeu e tudo.

Se encolheu na cama quando Roberto saiu. Viu o vulto dele se afastar pra jogar a camisinha fora, ouviu o som do chuveiro logo em seguida. Parecia chuva. Dormiu.

– Como tu sabe?

– Ué, todo mundo sabe.

– Vem pra minha casa, tá tarde.

– Não, eu tô bem, eu chamo um táxi.

– Vem, Mari, te levo no outro dia.

– Não precisa, Roberto.

– Tu não pode chegar em casa assim. E a gente pode ficar mais um tempo juntos.

– Que tenso.

– Diz ele que ela até era legal, mas aí ele voltou com a Bruna…

– Tu engordou, Mariana?

– Sei lá, tia, acho que sim.

– Tem que ver isso. Mulher gorda nenhum homem quer.

– Credo, tia!

– E tu também não te cuida. Não pinta as unhas, não arruma o cabelo. E ainda vai assim na festa?

– Na boa, se quisesse se matar mesmo, tinha conseguido.

– Credo, Diego!

Será que isso dava? Tinha que dar, ela pensou. Tinha que dar por que não aguentava mais. Não via saída, tinha medo de tudo, de todos, de si, do mundo. O túnel era tão longo que nem luz se via. Não tinha como seguir assim. Mariana só queria apagar. Se acabasse com tudo, tudo ia ficar bem.

– Mas é, ué! Deve tá querendo chamar atenção.

Jade

Jade Arbo, 24, feminazi esquerdopata louca da problematização (mentira, sou pós-moderna cirandeira, mas vai ter crítica sim). Estudante de Bacharelado em Letras, interessada em feminismo, filosofia, história e o gênero dos anjos.

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