Sereias

 

“Eu daria tudo por um pouco de silêncio agora”

A frase inevitavelmente se repetia de novo e de novo no interior da cabeça loura repousada tristemente sobre um par de braços frágeis. Estes por sua vez se cruzavam sobre o parapeito da varanda de uma cobertura onde uma festa acontecia. Pela relativamente pouca altura do prédio, ali fora o som do trânsito chegava com facilidade. Do lado de dentro, a seleção agitada do aspirante a DJ fazia as paredes vibrarem brevemente.

Silêncio parecia uma ideia muito distante. A blusa de cetim fino e mangas compridas não era o bastante para bloquear o frio da noite litorânea, em pleno mês de maio. A escolhera pensando no calor humano que agora fazia questão de rejeitar. Sair não resolvera muita coisa com relação ao barulho, mas ao menos agora tinha um pouco de ar para respirar e não precisava encarar tanta gente se divertindo ou querendo interagir com ela.

“Quero ir embora”

Aos poucos ia conseguindo organizar os próprios pensamentos acima da zoeira constante, ainda que eles continuassem reincidentes. Sabia que sua amiga para quem dera carona estava se divertindo o bastante para não ir procurá-la, então definitivamente não queria atrapalhá-la. A outra muito provavelmente acabaria indo embora com algum rapaz, mas não podia contar com isso. Mas ela continuava mal por ainda estar ali. E isso só aumentava o ódio por sua própria mania de se preocupar tanto com os outros, até em momentos como aquele.

Seu estômago embrulhava levemente, e era incapaz de dizer se por nervosismo ou por estar há tanto tempo sem comer. Passara o dia correndo de lá para cá e se preocupando com cabelo, unhas, roupa e maquiagem, de modo que só beliscara alguns petiscos desde o almoço. Podia ser isso. Ou podia ser a ansiedade que ela não podia manifestar fazendo mal de dentro pra fora, inclusive fisicamente. Mentalmente ela já sabia que não estava nada bem.

“Eu preciso ir embora”

Estava prestes a chorar quando um susto a tirou um pouco de seus pensamentos. Um grito longo e agudo foi se espalhando pelo ambiente, a alcançando nitidamente quando todo o som da festa cessou. A injeção de adrenalina instantaneamente a fez se virar e correr de volta para dentro. Era difícil distinguir rostos ou interpretar a confusão que se passava, mas a certo ponto todos pareciam entrar em um consenso e se aglomerar próximo à porta do banheiro.

“O que tá acontecendo?”
“Meu Deus, não acredito!”
“Ai, não consigo ver…”

Ela também não conseguia ver. O grupo de pessoas se amontoara tanto que criara uma forma compacta e difícil de transpor. No meio daquele empurra-empurra frenético e principalmente contra qualquer rapaz de estatura normal seu corpo pequeno não tinha muita vez. Se demorasse um pouco mais, talvez a eletricidade da ação diminuísse e ela acabaria pensando melhor, desistindo e aproveitando a confusão para ir embora de fininho – a amiga arrumaria um jeito, afinal.

“É o Túlio mesmo, gente?”

Ouvir aquele nome era o que faltava para manter seu estado de alerta. Ou melhor, para aumentá-lo ainda mais. A ansiedade se manifestou trazendo a dicotômica sensação de arrepio e calor, com uma leve acentuação no suor. O nome, naquela situação específica, causara ainda mais curiosidade sobre o que estava acontecendo. Normalmente ouvi-lo a faria ficar ainda mais desconfortável e impelida a ir embora, mas algo a fez permanecer e se empenhar um pouco mais na tentativa de entranhar-se na multidão. Era como se algum tipo de intuição lhe desse um palpite vago.

Não foi fácil vencer a barreira humana que a separava do foco de toda aquela atenção. Teve de fazer coisas que em outras situações rejeitaria por serem humilhantes, como se abaixar e passar por sob as axilas de alguém. Mas aos poucos foi conseguindo se aproximar do centro e se posicionar de forma a não ser muito massacrada. Em determinado ponto, ficou mais difícil avançar, e teve que se dar por satisfeita com a distância que alcançou. Ali, no entanto, ao se erguer nas pontas dos pés e se apoiar nos ombros de alguém, ela já conseguiu ver…

Seu olhar surpreso foi de encontro exatamente a aquele outro par de olhos, vidrados e turvos pela água que escorria sobre ele. O corpo na banheira parecia ter sido cuidadosamente ajeitado para ficar sentado sob o chuveiro ligado, que continuava a encher a banheira transbordante. Só então ela percebeu a enorme poça, que começava a se extender pela porta afora. Mas isso não era exatamente o que prendia sua atenção nesse momento. Ela continuou encaranto aquele rosto jovem e inerte por uns segundos, sentindo… paz.

Devia ficar mal por se sentir assim pela morte (e provável assassinato) de alguém? Nem se preocupava com isso, na verdade. Só conseguia pensar em como todo o asco, o medo, a vergonha e a incerteza pareciam ter sido lavados de dentro dela, desde o momento em que viu aqueles olhos cobertos pela água, pacificadora. Quando recuperou a própria reação, tornou a se esgueirar em meio à multidão, agora no sentido contrário. Parecia mais fácil agora, seja pela menor resistência dos demais a cederem espaço, seja por sua própria sensação de leveza.

Depois de se esquivar de todos e voltar ao espaço aberto da sala de estar, teve sua atenção tomada por uma uma pessoa que, ao contrário de todos os demais presentes, estava totalmente alheia à situação. Uma mulher mais ou menos da sua idade estava sentada calmamente sobre um dos pufs da festa, com os cabelos blorange presos em um coque frouxo lateral. Sua pele era dourada, mas dourada mesmo; ela brilhava suavemente. Provavelmente usava algum glitter corporal ou coisa assim…

E estava olhando diretamente para ela. Era estranho para sua timidez, mas ela não se sentiu desconfortável com a encarada. Segurou o olhar, assim como a outra, que se levantou lentamente do acento, sempre a fitando. A ruiva só se virou quando começou a andar em direção à saída, sempre de forma displicente, mas hipnotizante. Um lampejo de racionalidade a impediu de seguir a mulher misteriosa pela porta da frente. A polícia já devia estar chegando – ouvira alguém ligar em meio à confusão -, não poderia abandonar o local.

Em vez disso voltou para a varanda, agora não em busca de silêncio, mas de outra coisa. Sozinha, lá ela finalmente pode soltar um longo suspiro de alívio e deixar surgir um sorriso discreto no canto dos lábios, sem o perigo de ser vista. Tirou um maço de cigarros de dentro da bolsa de mão e acendeu um, se debruçando novamente sobre o parapeito. Se deixou ficar ali por alguns minutos.

Estava quase terminando o cigarro quando viu. O apartamento dava de frente para a praia, deserta, exceto… A tal mulher estava agora andando na areia, soltando os cabelos que caíam suavemente pelas costas, sua aura fascninante sempre presente. Ela parecia estranhamente decidida ao ir em direção ao mar noturno e gélido. A visibilidade era pouca, proporcionada apenas pela lua e alguns postes no asfalto, mas a loura não parou de observar aquela caminhada.

Quando começou a chegar próximo à beira foi se despindo, mas não estava usando traje de banho. Não hesitou nem quando seus pés tocaram a água fria e continuou, até finalmente estar numa produndidade que lhe permitia mergulhar. E sumiu. Uma pequena angústia tomou conta de sua observadora enquanto ela ficava dois, três minutos submersa sem reaparecer.

Mas como já havia acontecido tantas vezes naquela noite, a emoção logo foi substituída por outra, quando por um instante um brilho emergiu, como se flertasse com o ar. Ela podia jurar por todas as coisas sagradas que uma cauda com escamas douradas fez um movimento suave de C até bater novamente na água e desaparecer novamente. E apenas pela segunda vez naquela noite inteira, ela sorriu.

Mariana

– Cês ouviram da Mariana?

– Que Mariana?

– A Mariana Castro, do terceiro semestre.

– Não, que foi?

Imagem: Gregory Crewdson

Contou as pílulas. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Será que isso dava? Tinha que dar, ela pensou.

– Tá no hospital. Tentou se matar, parece.

– Mentira! A Mariana?

– Pois é.

– Pai? – Começou com cautela, torcendo as mãos.

– Hm.

– Dá pra falar agora?

– Tô saindo já. Que foi, Mariana?

– Eu acho que eu tô com um problema.

– Tem que ser agora, filha?

Ficou em silêncio.

– Anda, Mariana.

– Nada não, pai. Pode ir.

 – Caramba…

– Pois é. Quem vê não diz, né?

Não tinha gaze em casa. Nunca tinha nada em casa, capaz que ia ter gaze. Teve que colocar papel higiênico entre a pele das coxas e o jeans da calça pra não roçar nos cortes. 

– Não, nem a pau.

– Bom, teve aquela vez… Lembra? Na aula de semiótica?

Sentiu um nó na garganta, um aperto. Quando a cena começou ela desviou o olhar da tela, mas ainda dava pra ouvir os gemidos. “Não, não”, Grace implorava, mas óbvio que ninguém fazia nada. Voltou a olhar pra frente quando achou que a cena tinha terminado, mas ela seguia, em silêncio. Chuck em cima dela. A ausência de cenário era uma estratégia simbólica, a professora havia dito. Era como se todos soubessem. E todos sabiam. E ninguém fazia nada. Que merda. Saiu da sala correndo, deu sorte de chegar a tempo no banheiro feminino, abrir a tampa do vaso e vomitar.

– É, aquilo foi estranho. E depois ela não voltou mais, né?

– Não, pra essa cadeira não.

– Teu pai e eu te damos tudo, Mariana! Teu pai tá com dois empregos pra pagar essa tua faculdade, que nem dinheiro vai dar, e tu me roda numa cadeira pra gente ter que pagar de novo?

– Desculpa, mãe. Não vou mais rodar, juro.

– Desculpa não adianta. Desculpa não vai pagar a mensalidade.

– Desculpa…

– Cês acham que tem alguma coisa a ver?

– Claro que não. Quem é que se mata por causa de filme?

– Sei lá, vai saber. Nem conheço a guria direito.

Faltou ao estágio naquela manhã. Eles ligaram, mas ela não atendeu. A faculdade era longe, a porta era longe, o telefone era longe.

– Anda, Mariana! – a mãe bateu na porta.

– Eu tô doente, não vou hoje.

– Doente do quê, menina? Tá doente nada. Ontem fui trabalhar com 39 graus de febre e tu fica aí nessa cama?

– Roberto pegou ela, cês sabiam?

– Roberto? Sério?

– Sim. Comeu e tudo.

Se encolheu na cama quando Roberto saiu. Viu o vulto dele se afastar pra jogar a camisinha fora, ouviu o som do chuveiro logo em seguida. Parecia chuva. Dormiu.

– Como tu sabe?

– Ué, todo mundo sabe.

– Vem pra minha casa, tá tarde.

– Não, eu tô bem, eu chamo um táxi.

– Vem, Mari, te levo no outro dia.

– Não precisa, Roberto.

– Tu não pode chegar em casa assim. E a gente pode ficar mais um tempo juntos.

– Que tenso.

– Diz ele que ela até era legal, mas aí ele voltou com a Bruna…

– Tu engordou, Mariana?

– Sei lá, tia, acho que sim.

– Tem que ver isso. Mulher gorda nenhum homem quer.

– Credo, tia!

– E tu também não te cuida. Não pinta as unhas, não arruma o cabelo. E ainda vai assim na festa?

– Na boa, se quisesse se matar mesmo, tinha conseguido.

– Credo, Diego!

Será que isso dava? Tinha que dar, ela pensou. Tinha que dar por que não aguentava mais. Não via saída, tinha medo de tudo, de todos, de si, do mundo. O túnel era tão longo que nem luz se via. Não tinha como seguir assim. Mariana só queria apagar. Se acabasse com tudo, tudo ia ficar bem.

– Mas é, ué! Deve tá querendo chamar atenção.