Eu estou de pé

A bagunça se disfarça. É uma coisa doida. Cada respiração funda é uma viagem de ida e volta para qualquer situação aleatória que a minha mente lembra.

– Você precisa filtrar – Diz o Eu, o que mais sofre – Olha essas caixas! Como você vai arrumar isso?

Estou sentada no canto da mente, observando o Eu no meio da bagunça:

– E se eu não arrumar isso?

Ele me fita com raiva. E conheço aquela raiva. Ela é minha.

– Não quer mais histórias novas? Gostou de passar os últimos meses nesse canto, apenas existindo? – Ele chuta uma caixa – “Março a maio/2015”. Isso tem quase dois anos e você trás isso à tona como se fosse algo bom de se lembrar!

– Olha o tamanho disso. É maior do que eu e você juntos. E não foram só 3 meses, nós dois sabemos.

Ele chuta outra caixa, um pouco menor:

– “Novembro/2016”. E essa? Qual a sua desculpa? “Está recente”?

Sim, está.

– Queima essa merda. – Levanto do meu canto e vou até a caixa – De que adianta você ser dominado por um mês de esperança para depois acabar desse jeito de novo?

Fico de pé, encarando o último trauma, fingindo para o Eu que aquela caixa de traumas não é a mais perigosa.

– Megan, você precisa filtrar isso. O nosso lar sempre foi aqui e olha esse lugar agora! Tem trauma aberto desde 2008.

2008. Caixa de traumas lotada de crises que, até então, não sabia que eram crises. Lembro como se fosse ontem do dia que chorei desesperada no banheiro da escola, enquanto meu corpo todo tremia e suava.

– Megan, nós precisamos trabalhar juntos.

Eu já não sei mais separá-los. Virou simplesmente um chão cheio de lembranças negativas de histórias que simplesmente aparecem diante dos meus olhos. Dentre todos os meus erros, durante toda a minha vida, não valorizar a minha paz mental é, definitivamente, o que mais sai caro.

– Megan…

Encaro o meu Eu. Ainda apavorado, mas continua lutando. Houve um tempo onde ele não tinha forças para tentar, e hoje ele cobra algum tipo de melhora, seja qual for. Caminho diante todos os traumas espalhados e pego a caixa do ano passado. Pequena mas pesada, muito pesada:

– Não consigo tirar daqui…

– Mas podemos fechar.

– Já fizemos isso antes…

– Podemos fazer de novo. – Ele pega minha mão e me dá um sorriso – Nós merecemos mais do que existir.

Nos sentamos do lado da caixa, pegamos uma fita adesiva e dobramos as bordas. Saía da caixa seu cheiro, nossos assuntos, nossas risadas. Meus olhos lacrimejam enquanto eu ouço a cola da fita grudando. É hora de assumir para mim mesma que alguns ciclos precisam ser fechados e seguir em frente, porque não dá mais para deixar as caixas ali, daquele jeito, tropeçando em traumas dentro da minha própria cabeça.

Terminamos de fechar e, magicamente, a bagunça diminui.

– Faltam muitas ainda.

O Eu enxuga minhas lágrimas e sorri:

– Não importa o quanto falta, fechamos uma. Você não está mais apenas existindo, não nesse momento, e eu estou de pé.

Eu estou de pé. Faltam muitas caixas, de muitos anos, de muitos traumas, mas eu estou de pé. Sorrio para o Eu que, após um momento longo de desespero, eu reconheço. Ele me oferece o braço e sua aliança dourada brilha na mão direita. Nesse momento, minha cabeça não parece mais o inferno de algumas horas atrás, e a esperança de dias melhores invade minhas veias.

Porque eu estou de pé.