A tirania dos cachos

Arte: Kai Samuel-Davis

Uma gigante empresa do ramo de cosméticos recentemente lançou mão de uma propaganda utilizando o seguinte jargão: “Em terra de chapinha quem tem cachos é rainha.”

A partir disso, passei a me questionar: e quem não tem cachos, é o quê? Na época em que “cabelo bom era cabelo liso” o jargão obscuro e obsceno que transpassou tempos e tempos e “tentou” (e tenta) suprimir a autonomia de escolha da mulher era: “se não está liso está feio, portanto, engula seu orgulho e seu desejo e siga a tendência” – as mulheres negras sabem bem.

Mas e hoje, será que está diferente? sim, está, mas nem tanto, escuto cada vez mais alto a voz feminina ecoar pelo mundo, mas também vejo grandes empresas de cosméticos se aproveitando do alcance dessa voz com o intuito não de transformar cabelos, mas de lucrar domando corpos. E como fazem isso? simples, lançam uma nova tirania: a dos cachos. Eis um assunto aparentemente banal, mas creio que diz muito sobre nós, como estamos nos percebendo e nos posicionando. Esse é um verdadeiro assunto de cabeça- temos de pensar.

É correto que para vender um produto tenha que se elaborar estratégias de marketing, publicidade e propaganda a fim de que o produto seja desejado e adquirido pelos consumidores, o que não é aceitável, é que em pleno século XXI, onde ocorre um verdadeiro “Bum” de discursos e análises sociológicas e históricas sobre os padrões de beleza impostos às mulheres, uma empresa ainda elabore uma campanha utilizando argumentos com potencial de segregação- queria acreditar na pura falta de criatividade. Infelizmente pude presenciar algumas mulheres hostilizando umas as outras pelo fato de que algumas optaram por manter seus cabelos alisados- lamentável.

Observando várias páginas sobre transição capilar nas redes sociais, deparei-me com uma grande quantidade de depoimentos de mulheres contando sobre os efeitos da transição capilar em suas vidas. O que pude ver e sentir, é que cada mulher que se submeteu ao processo, atribuiu um significado único a experiência, embora o sentimento de libertação seja comum entre a maioria. Trata-se também de uma transformação que a olho nu parece proceder apenas de uma mera mudança capilar, mas aos olhos da alma e da história, trata-se de uma mudança profunda que tem a ver com a vivência e singularidade de cada mulher, escolha e autonomia, e sobretudo, de um ato político, cujo jargão poderia ser: lisa ou cacheada, black, careca, descabelada ou rasta, quem escolhe sou eu e a indústria não manda em nada.

É inegável a visibilidade progressiva que a luta feminina vem ganhando nos últimos tempos, isso é uma vitória, mas é importante que estejamos atentas a determinados movimentos que podem transformar essa vitória em um “presente de grego”.

Dito isso, eu grito bem alto de cá: em terra de chapinha, quem tem cachos é quem quer, quem escolheu ter cachos e todas, são rainhas.

 

A Liberdade do Poder

Image: Reprodução/Google

     “Onde estão minhas meninas?” pergunta Taylor Momsen em um show do The Pretty Reckless, na Argentina, em julho de 2012. No show, que eu já vi infinitas vezes, ela usa uma bota de cano longo, que fica acima dos joelhos, e uma camiseta do Che Guevara. Sim, apenas isso. O cabelo loiro, longo e fino chega até a cintura e a sexualidade transmitida vai além da ausência de sutiãs e meias. Vai além dos estereótipos, além do salto, do lápis preto, do rock no fundo: é liberdade que vaza.

     A representatividade da mulher que me transmite liberdade me faz vagar sobre a vida real. Aquela fora do palco, fazendo eu me encontrar com uma adolescente de 17 anos, que foi criada através da ideologia de mulheres comportadas e futuras mães de família. Cair no estereótipo de “boa moça” nunca esteve nos planos, mas a ideologia era forte e persistente. “Aumenta esse shorts”, “sobe esse blusa”, “eu não quero você transando por aí”. Legal, mas e o que eu quero? E a minha liberdade? E o meu prazer? Onde fica?

     Parece tendência podar asas de meninas que querem voar, porque, claro, pássaros fora de gaiolas são donos de si mesmos e sabe-se lá o que pode acontecer. Imagina se elas aprendem a se amar e descobrem, dentro delas, a liberdade da auto-suficiência?  A ideia de uma mulher mandando no próprio sexo deixa a sociedade em choque, já que é a sociedade que nos obriga a seguir roteiros escritos para nós, só que por outras pessoas. Querem que vivamos histórias que não são nossas, com pessoas que não se importam. Porque, seremos sensatas, eles não se importam. Eles não nos querem opinando, pensando, crescendo, vivendo. Mas, pasmem, quem tem que querer, seja o que for, somos nós.

     Não acredito que algum dia a sociedade vá deixar as nossas meninas em paz, mas eu me tornei uma fonte de criação de asas e, cada vez mais, pregadora da liberdade e do direito de viver a vida à sua própria forma. O tabu do sexo nos cria como se querer algo fora dos padrões fosse algo incomum, mas não é. Afinal, o que são padrões? Somos mais do que listas riscadas e mulheres sem histórias. Somos mais do que padrões.

     Hoje sinto minha liberdade vazar. Pelos olhos, pelos dedos, pela boca. Hoje eu entendo que tesão é dizer sim quando quer e, principalmente, falar não; é se permitir querer mudar e poder voltar ao começo quantas vezes quiser. É se sentir bem com suas escolhas e viver com elas; é ser amiga da pequena morte e, ao mesmo tempo, não querer dormir. Liberdade é poder.

     Que poder nunca nos falte.