“Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade” está bloqueado Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade

Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade

 “Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade” está bloqueado Johnny Depp em Animais Fantásticos e Onde Habitam: um texto sobre decepção e impunidade
Imagens: reprodução/internet. Montagem: Tamires Arsênio

Eu não sabia se eu deveria mesmo escrever sobre esse assunto na coluna, porque ele está um pouco passado e já foi falado inúmeras vezes. Muitos dos vídeos, textos e comentários feitos, inclusive, continham quase tudo que eu penso sobre. Mas eu sinto que se eu não fizer isso eu estarei sendo omissa, então vou tentar passar minha visão mais pessoal.

À época das notícias sobre a agressão de Johnny Depp à ex-mulher Amber Heard, eu cheguei a elaborar um textinho para postar aqui sobre o assunto, mas por transtornos pessoais acabei não conseguindo. Nele eu falava que se tivesse que escolher um dos dois para oferecer meu benefício da dúvida, seria ela.

Isso não apenas porque “mulheres são sempre inocentes” ou qualquer coisa do tipo. Há evidências contra ele mas não provas concretas, coisa que dificilmente teremos dado o acordo feito entre os dois. Mas isso leva também a não haver provas da inocência dele (e consequente mentira dela).

Meu benefício fica com a Amber simplesmente pela observação de padrões. Como o fato de ela ter retirado as acusações e aceitado um acordo, comum nesses casos (salvo proporções), ainda mais quando o homem é mais influente que a mulher. E o descrédito pelas acusações é um dos motivos que fazem investigações de crimes contra a mulher não irem adiante. Outro padrão que se repete é a invariável culpabilização da vítima. Cheguei a ler recentemente ela sendo julgada por ter retirado a ação, tendo mentido ou não (o que demonstra tanta falta de empatia que eu mal consigo expressar).

Finalmente, há o fator importância que eu já citei. Ele, por ser homem, já tende a ter a imagem mais protegida pela sociedade. Winona Ryder foi pega roubando em lojas e sua carreira nunca mais foi a mesma. Mel Gibson, entre outras ações deploráveis, bateu na ex-namorada e segue renomado. Sendo Depp alguém mais expressivo dentro do meio em que eles estão (e tendo uma legião de fãs absurdamente fiéis, por sinal), isso se potencializa. A imagem de Amber é que fica manchada, tendo mentido ou não. Ela inclusive correu risco de perder seu papel no filme da Liga da Justiça à época das denúncias.

Bojack Horseman. Imagem: O Filme é Legal, Mas

Depois de explicar minha posição sobre o caso em si, é hora de falar sobre a escalação. Harry Potter é uma coisa tão ligada à minha vida e à minha história que eu nem lembro mais como eu era antes de conhecer a saga. Fui apresentada a ela aos 8 anos, quando minha tia me indicou o primeiro livro – “já que você gosta tanto de ler, tá saindo filme dele agora” –, e depois disso não parei mais. O fato de ter tido contato com ela tão jovem ajuda a mesclá-la ao que eu sou, mas não dá para negar que é uma obra com potencial transformador.

Os livros falam sobre tolerância, respeito, amizade, coragem e outros valores que são essenciais para qualquer ser humano. Valores que, por mais óbvios que pareçam, não são todos tão facilmente encontrados assim. Caso contrário, não existiria tanta injustiça e opressão no mundo, e nem este blog em que agora escrevo precisaria existir. Mas há pessoas que sabem a importância dessas questões e me atrevo a dizer que algumas delas aprenderam isso com Harry Potter. Não sem bases: leitores de Harry Potter são menos propensos a serem preconceituosos, segundo estudos.

J.K. Rowling esteve em um relacionamento abusivo antes da fama e chegou a ser agredida pelo ex-marido. Este fato foi uma parte triste e importante da sua trajetória, tendo inclusive contribuído para sua depressão, que mais tarde inspiraria a criação dos Dementadores (e quem os conhece e/ou teve a doença sabe o quanto ambos podem ser terríveis).

É por esses motivos que para mim (e para uma boa parcela do público) a saga é simplesmente incompatível com a presença do Johnny Depp, ainda mais em um papel de destaque como Grindelwald. Eu entendo que contratos são complicados e que as gravações provavelmente ocorreram antes das acusações, mas por bem menos atores são substituídos. Jammie Waylett, que interpretou Crabbe, não retomou o papel no último filme por ter sido condenado por porte de drogas. Para seu azar, Waylett nunca teve o renome de Depp.

Isso, sem falar que o diretor David Yates defendeu a escolha amenizando o acontecimento e, em outras palavras, reforçando a ideia de que “vida pessoal não interfere em vida profissional”. Ou seja, dando a entender que Depp seria escolhido de todo modo. Como eu citei acima, isso seria verdade se substituições não fossem feitas apenas pela vida pessoal dos atores, e se a imagem de um filme não estivesse intrinsecamente ligada à imagem de sua equipe.

Seguir dando destaque e defendendo um ator acusado de violência contra a mulher é reforçar a sensação de impunidade com a qual nós já estamos tão acostumadas a conviver. Todas as nossas ações são políticas, absolutamente tudo. Por que uma produção audiovisual de amplo alcance e influência, que inclusive prega ideais de justiça, não o seria?

Mais um ponto que me incomoda: o fato de eu rejeitar a escolha por motivos ideológicos leva as pessoas a descartarem todos os meus outros motivos. MESMO se Johnny Depp não estivesse envolvido nessas polêmicas eu não teria gostado. O fato de ele ser americano e o personagem alemão (ou coisa do tipo) é o menor dos problemas (mas é um deles).

Eu já fui fã dele, e costumava defender que, apesar dos trabalhos ruins, ele também podia ser muito bom. Mas eu não era cega e sabia que quanto mais “pop” era o filme, pior era sua atuação. E qualquer coisa ligada ao nome Harry Potter é inegavelmente pop. Ir de um vilão tão bem interpretado como o Voldemort de Ralph Fiennes para um Grindewald muito provavelmente caricato não me agrada nem um pouco.

E os dois aspectos nem precisam ser totalmente desassociados. Yates defendeu a escolha com base na ideia de que Depp seria o melhor para o papel. O fato dele não ser só dá mais força para a ideia de que não importa nem se a pessoa está envolvida em um caso de agressão, nem se ele não é tão essencial assim para a trama: ele vai seguir impune.

Por fim, lembro que sim, eu realmente acredito na ressocialização e recuperação das pessoas, mas isso não significa que eu deva aceitar impunidade. E é isso que esse caso GRITA em todos os seus aspectos. Sem falar que em menos de um ano após as denúncias Depp já está sendo não apenas defendido, mas também vangloriado e recebendo aplausos. E, meus amigos, se isso não é um belo tapa na cara de qualquer pessoa que luta pelo fim da violência contra a mulher e sua banalização, eu não sei mais o que é.

Tamires Arsênio
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Tamires Arsênio

26 anos, mineira, jornalista por formação, escritora por amor e atualmente envolvida nuns 2930281 projetos (a maioria sobre protagonismo feminino). Feminista, bem bruxona mesmo. Corvinal até o tutano, mesmo que o Pottermore teime que não. Ainda esperando que o Doctor pare com a TARDIS à minha porta e me chame pra ser companion.
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Comentários

comentários

2 comments

  1. Mariana Rodrigues

    Belo texto.Não estava muito por dentro disso. Maa Sou fã, muito fã de HP também, e essa escolha realmente não foi boa com tido isso.Nossa, e esperava que a J.K. tivesse mais posicionamento no assunto…

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  2. Impunidade masculina segue firme (e nós seguimos com medo) - Elas por Elas - Projeto Literário Elas por Elas – Projeto Literário

    […] Sempre que um caso de assédio, estupro, violência doméstica ou qualquer outra opressão de gênero repercute na mídia, uma boa parcela da população se arma em defesa do agressor. Vide textos já postados aqui no blog, sobre os casos dos atores José Mayer e Johnny Depp. […]

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