Uma reflexão sobre As Caça-Fantasmas, boicotes, machistas e representatividade

Reprodução/internet
Este post pode soar um pouco desatualizado, haja vista que a notícia que o motivou já tem umas boas semanas. Mas a reflexão que ela me trouxe ainda é bem pertinente. O negócio é que eu fiquei sinceramente com medo quando soube que As Caça-Fantasmas deu prejuízo nas salas de cinema.
Antes de tudo, é preciso entender o significado desse filme. E, principalmente, seu papel como símbolo. Versão “gender bender” (de gêneros trocados) do clássico pop dos anos 80, As Caça-Fantasmas pode até não ser uma obra genial – o original também não é -, mas já pode ser considerado corajoso por ser assumida e propositalmente representativo.
E sob uma máscara de nostalgia que mal disfarça o motivo real (dica: machismo),  grupos boicotaram a produção desde antes de seu lançamento. Olha, de fato nem eu gostei muito do primeiro trailer lançado, mas “gosto” definitivamente não é explicação o bastante para que ele tenha batido recorde de avaliações negativas no YouTube.
Isso tudo, aliado à propagação em massa do clássico “nem vi e sei que é ruim” fizeram a película passar quase instantaneamente no Teste da Furiosa. Aquele que mede a qualidade/representatividade de uma produção baseado na fúria (sem trocadilho) dos machistas na internet (leia sobre ele, em inglês, aqui).
É isso (e boicote) que machinhos fazem quando descobrem um filme que não foi feito para eles
Mas, diferentemente de Mad Max: Estrada da Fúria, o boicote dessa vez parece ter dado efeito – ou pelo menos é essa a impressão que ficará para muitos. E é justamente por isso que eu tenho medo. Temo duas fortes – e péssimas – possibilidades: ou os haters se sentirem responsáveis e consequentemente mais encorajados para novas investidas, ou os grandes produtores se sentirem acuados e diminuírem os avanços que já tivemos nesse aspecto. A antes confirmada sequência de As Caça-Fantasmas, inclusive, já foi posta em xeque, como dito na matéria que gerou este post.
A gente sabe bem como funciona o mercado. Tudo é feito visando o público e, principalmente, o lucro. Não dá para ser ingênuo de acreditar que o crescimento de produções representativas e/ou empoderadoras foi meramente por ideologia. O que houve foi um crescimento da projeção do público preocupado com essas questões, que passou a ser visto como expressivo, ao ponto de provocar mudanças.
Mas se os haters e machistas começarem a ser vistos como uma parcela significativa do público, as coisas podem se complicar. Porque se tiverem que escolher entre agradar o público desconstruído (promovendo mais desconstrução, aliás) ou o dinheiro, é óbvio que sempre ficarão com a segunda opção.
Isso pode até parecer desmotivador, mas eu acredito que só reforça que não podemos parar de reivindicar e fazer nossas vozes valerem. Não foi ficando caladas no cantinho em que nos colocaram que conseguimos começar a mudança.
Ao contrário do que tentam alegar, até nosso “textão de Facebook” já fez e continua fazendo diferença. Mas ele de fato não é o bastante. Nossas reclamações e manifestações nos fazem sermos vistas como público em potencial, mas não como efetivo. E é exercendo os dois papéis que conseguimos alguma coisa. E, no final das contas, faz mais sentido focarmos nossas energias (e nosso dinheiro) em produções que se alinham com nossos ideais, né?
É mostrando a que viemos que conseguimos resultados
E é claro que eu não estou falando de simplesmente encher os bolsos de grandes produtores como “prêmio” por terem se adequado a novas tendências. Nem mesmo falo de sair assistindo o que não nos agrada só por ser representativo. Mas, primeiro, eu incluo aqui também o incentivo aos pequenos e principalmente pequenas profissionais da arte e do entretenimento, que precisam ainda mais dele. Segundo que só de nos esforçarmos um pouquinho para prestigiar coisas que gostamos e TAMBÉM são representativas já estamos fazendo alguma coisa.
E por último, mas não menos importante: só se muda um mercado por dentro. E o primeiro patamar que alcançamos para mudar a indústria cultural é o do público. Sendo vistas como público “ganhamos” produções que podem, inclusive, despertar novas criadoras entre nós. 
Isso, aliado às nossas reivindicações por representatividade, só tende a aumentar o número de produtos escritos, desenhados, dirigidos, produzidos por mulheres. Vide os vindouros filmes da Mulher Maravilha e da Capitã Marvel e suas diretorAs. Aos poucos vamos ocupando novos espaços e promovendo exatamente a mudança que os haters não querem ver. E eles que se acostumem

A gente chega lá!

Tamires Arsênio
Me segue aí!

Tamires Arsênio

26 anos, mineira, jornalista por formação, escritora por amor e atualmente envolvida nuns 2930281 projetos (a maioria sobre protagonismo feminino). Feminista, bem bruxona mesmo. Corvinal até o tutano, mesmo que o Pottermore teime que não. Ainda esperando que o Doctor pare com a TARDIS à minha porta e me chame pra ser companion.
Tamires Arsênio
Me segue aí!

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Comentários

comentários

18 comments

  1. Brenda Priscila

    Oi, tudo bom?
    Uau, arrasou! Eu achei um pouco estranho porque eu nem fiquei sabendo desse filme, acho que faltou um pouco mais de divulgação. Como você disse, um dia chegamos lá.
    Beijos
    http://www.vireiprincesa.com

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  2. Mundo de Fany

    Arrasou no post amore, super girl power! Nunca vi nada sobre o filmes, mas já quero ver, AMO a Melissa ela deve ter arrasado mais uma vez nesse filme! <3
    Bjs adoreeei.

    http://www.mundodefany.com.br

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  3. Love/Paranoia

    Meu deus, eu não acredito nisso… Não assisti o filme (mas conheço a "série") e nem essa notícia… to chocada com o motivo disso tudo. Não consigo acreditar que em pleno século XXI nós ainda sofremos tanto por sermos mulheres… Nem UM FILME se salva nisso. Fico relendo o post e to incrédula. Espero que esse seja mais um incentivo para que as mulheres lutem cada vez mais, ao invés de abaixar a cabeça.

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  4. Ingrid Caroline

    Já quero assistir o filme, polêmico como eu gosto e ousado, arte é livre tem que ser liver e imaginativa e não seguir padrões políticos e sociais, foram esses padrões que sempre castigaram bons artistas

    http://www.cantinhob.com

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  5. Rafaela Arnoldi

    Eu assisti e eu gostei MUITO. Aliás, acho que as meninas arrasaram e deram uma personalidade diferente a toda narrativa. Mas, você tem razão em toda sua reflexão amiga, sempre tem <3

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  6. Érika Monteiro

    Olá! Acredito que eu penso um tanto diferente com relação aos filmes. Talvez seja uma visão "inocente", mas quando assisto um filme analiso a qualidade fotográfica, o enredo, e o desempenho dos atores, e com base nesses aspectos esse filme é bem fraco. Em geral "cópias" ou sequências tendem a ter menor qualidade em vista do original, não que o primeiro filme da série tenha sido bom, mas este sinceramente merece uma nota 3,0. Beijos, Érika ^-^

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  7. Tamires

    A divulgação realmente foi mais modesta, mas tem tanto filme pior e mais mal divulgado que se sai bem, né? Uma pena 🙁

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  8. Tamires

    Eu confesso que não curto muito a Melissa, mas AMO a Kristen, e as outras atrizes são maravilhosas também!

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  9. Tamires

    É de cair o cu da bunda, né? Mas se eles acham que isso vai desanimar a gente, tão MUITO enganados! Vamo que vamo que tem muito caminho pela frente, mas a gente aguenta!

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  10. Tamires

    Adoro uma polêmica tb haha Mad Max foi um super polêmico que não me decepcionou em nadinha. E sim, cercear a arte por mesquinharia é norjento.

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  11. Tamires

    É com dor no coração que eu falo que não consegui ver o filme ainda… O cinema daqui nem passou, e não quero baixar (tem que dar uma força e fazer um negócio legalizado, né)? Mas tá todo mundo falando que ele é hilário, e eu tô loooouca pra ver (além dos motivos que eu já citei no texto)

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  12. Tamires

    Então, Érika, eu me limitei a falar do filme como símbolo porque, como disse no meu comentário acima, eu não consegui conferir a qualidade dele em si. Por isso levantei a reflexão em questão. 🙂

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  13. Kelly Del Rey

    Eu me lembro do primeiro filme nos anos 80, ainda não assisti esse do remake. Espero que seja bom como o original.

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  14. Izabella Azevedo

    EU fiquei muito chateada com todo esse boicote e tretei muito no facebook por isso, infelizmente aconteceu, infelizmente atingiu de forma massiva uma das atrizes e a exposição das mesmas diante de um público machista foi algo que me doeu o coração. Mas como você disse, precisamos resistir, apoiar as boas obras representativas e divulgá-las, mostrando que também somos público.

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  15. Fazendo Cyzisse por Cyh M.

    Olha eu particularmente não quis assistir mesmo, e infelizmente vi muitos dizerem que era péssimo, mas alguns comentarios era visivél notar que o machismo predominava viu, tudo bem que a mudança de uma equipe masculina para uma feminina foi estranho pra quem é das antigas e curtia os caças-fantasmas, mas a discussão na internet foi grande por conta dos machistas sim.

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  16. Tamires

    Eu acho que a primeira vez que vi o dos anos 80 foi este ano! Talvez quando era muito pequena, mas não lembro… Mas é um negócio que ficou marcado, não dá pra negar sua influência!

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  17. Tamires

    Eu fiquei arrasada com o ataque que a Leslie sofreu! O machismo piora exponencialmente quando ele se soma ao racismo, e lamento muito por ela ter passado por isso… Eu sempre torci e continuo torcendo pra que ela passe por isso da melhor forma possível, pisando nessas pessoas. E vamos todas nós nessa luta também, claro!

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  18. Tamires

    Formar uma opinião por causa do filme em si é ótimo. O que não rola é formar opinião preconceituosa e baseada em machismo, né? </3

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