Exercitando o pensamento crítico: Bonequinha de Luxo

Bonequinha de Luxo

Este é a o primeiro post da experiência que eu me propus a fazer aqui. Leia se quiser entender melhor.

Bonequinha de Luxo é um dos meus filmes preferidos, e sem dúvida o mais icônico da maravilhosa Audrey Hepburn. Eu me encantei por ele pela primeira vez aos 17 anos, e foi justamente nessa época que surgiu o meu amor pela atriz.

Entretanto, por mais que então eu não me atentasse tanto aos detalhes, é inegável que a produção possui, sim, alguns problemas. O mais explícito e exaustivamente apontado se trata do yellowface feito pelo ator Mikey Rooney, intérprete do japonês caricato Sr. Yunioshi. O personagem faz uma representação completamente negativa dos orientas: racista, estereotipada e como um mero alívio cômico.

Senhor Yunioshi
Mikey Rooney como senhor Yunioshi (reprodução/internet)

As cenas em que ele aparece, inclusive, são totalmente descartáveis. O que só aumenta a sensação de que era um erro “evitável”. Lógico que não dá para cair no anacronismo: em 1961 as preocupações atuais com representatividade simplesmente não existiam. Mas isso não anula e nem mesmo diminui ou justifica o erro. No máximo o explica e contextualiza.

Um comparativo: o mesmo filme traz um ator espanhol (José Luis de Vilallonga) como um personagem brasileiro. Primeiramente, tal fato é recorrente ainda hoje. Vide a mesma troca feita em Comer, Rezar, Amar (2010), onde Javier Bardem também interpreta um brasileiro, e o recente caso do Wagner Moura interpretando o colombiano Pablo Escobar. E, mas importante ainda, apesar de pecar em representatividade, o personagem não é caricato ou ofensivo. Sr. Yunioshi é isso tudo, com o adicional da prática do yellowface, o que aumenta o absurdo.

Villalonga
Villalonga em Bonequinha de Luxo (reprodução/internet)

Apesar de ser o mais famoso – e óbvio –, esse não é o único ponto do filme que pede reflexão. No que diz respeito à trama em si, há dois pontos que eu queria destacar. Um deles é meio baseado em “achismo”, porque eu ainda não tive oportunidade de ler a novela na qual o filme se inspira para tirar melhores conclusões. Mas pelo que sei, comparada à obra original de Truman Capote, a versão cinematográfica pode ser considerada meio medrosa.

Como tantas adaptações da época, a película deixou de lado alguns aspectos considerados polêmicos e/ou pesados do livro. Como, por exemplo, a sexualidade dos protagonistas: Holly seria supostamente bissexual, e Paul/Fred, gay. Isso tudo não apenas tornou Bonequinha de Luxo menos representativo, como menos subversivo – e mais despretensioso.

O outro ponto, e provavelmente o que eu tenho mais dificuldade de admitir, faz parte justamente da mensagem do filme. Não custa nada avisar sobre spoilers (mesmo sendo de algo de 55 anos), já que vou citar mais detalhes, inclusive o final. Holly é uma personagem complexa. Dá para dizer que ela esconde muitas características através de seus opostos: insegura, mas se faz de forte; profundamente ligada ao irmão, mas age como desapegada; indecisa, mas se enche de planos mirabolantes.

Mas nada disso a torna uma personagem fraca, pelo contrário. E, apesar de muitos desses opostos serem usados como casca, alguns são naturais. Como o seu espírito livre, a despeito de sua vontade de encontrar seu lugar. Essa liberdade a faz fugir de Paul até o final, quando ela finalmente se rende e os dois ficam juntos. A mensagem que fica é que, assim, ela encontrou seu lugar.

Talvez isso não fosse tão incômodo se não desse a sensação de descarte do diálogo que os dois têm na cena anterior (imagem abaixo).

Bonequinha de Luxo
Paul: Holly, eu estou apaixonado por você / Holly: E daí? /  Paul: E daí? Tudo! Eu amo você! Você pertence a mim. /  Holly: Não. Pessoas não pertencem umas às outras. /  Paul: Claro que elas pertencem! /  Holly: Não vou deixar ninguém me colocar em uma jaula! /  Paul: Eu não vou colocá-la em uma jaula! Eu quero amá-la! /  Holly: É a mesma coisa!

Holly acredita que o amor é uma prisão. Não há nada entre esse diálogo e a cena final que realmente demonstre que ela mudou esse pensamento. A sensação que fica é, ao contrário, que ela escolhe abdicar da própria liberdade em prol desse amor. E é um pouco decepcionante que uma personagem tão interessante e, principalmente, livre, abra mão de algo tão importante para ela, bem… por um homem. Talvez se houvesse algo mais claro que demonstrasse que ela passou a enxergar o amor de outra forma, o final não passasse essa sensação. Mas da forma como foi apresentado, infelizmente é isso que fica.

Mas, hei, eu ainda amo esse filme. Enxergo suas falhas, mas não deixo de amá-lo. E, aproveitando a oportunidade, quero fazer o inverso nesse último parágrafo e apresentar uma “contra-crítica”. Eu sempre vejo a Holly sendo incluída nas listas de Manic Pixie Dream Girls do cinema (como você vê aqui, em inglês), e não consigo concordar. MPDG são personagens femininas “maluquinhas”, sem muito pano de fundo, com defeitos “adoráveis” e que só servem de motivação para um pobre e infeliz protagonista masculino. Exemplos clássicos: a personagem que fez surgir o conceito, Claire (Kirsten Dunst), de Elizabethtown, e Allison (Zooey Deschanel), de Sim, Senhor.

Kirsten Dunst e Zooey Deschanel
Claire e Alisson (reprodução/internet)

Eu não vejo sentido nessa classificação. Na verdade, várias personagens da Audrey o são, mas não vejo a Holly assim. Tanto pela complexidade da personagem, que eu já apresentei, quanto pela sensação de que, na verdade, Paul é o personagem raso da história. Holly tem pano de fundo, defeitos de verdade e muda ao longo da trama. Já Paul permanece praticamente o mesmo do começo ao fim. Ele no máximo tem bons momentos com Holly, mas não sofreu realmente nenhuma grande transformação. Isso, se pararmos para pensar, quem passou foi ela. Seria Paul, então, um Manic Pixie Dream Boy? Algo a se pensar…