Sou a mulher presa que foge do mundo predador!

 

Caminhando pela selva de pedra e aço, me esquivando a cada passo para não me deparar com o leão que me cobiça como um pedaço de carne em seu prato. Ou em seu carro? Talvez em sua esquina? Será que é em sua moita que de tudo disfarça? Vai ser onde ninguém puder me ouvir gritar.

As pessoas (as muitas pessoas) não compreendem que meu medo é real e aprisionador. O medo de viver que foi impregnado em minha pele. Assim como se impregna o cheiro do esgoto ao corpo dos ratos, que precisam estar escondidos e acuados em buracos para escapar de todos que os veem como um ser dispensável. Ele nada merece além do sofrimento e os ataques por ser quem é. Eu sou o rato!

Também sou mulher que tem a cor e função de ser húmus. Produzida com o dever de ser fertil, fácil, abundante, útil para a agricultura machista que insiste em me alocar onde achar devido para produzir o que for de seu maior interesse. Sou uma escultura de terracota, que esbanja todo sua cor nos museus criados para a degustação masculina. A arte que deve ser apreciada e usada por todos aqueles que se mostrarem mais afim de impor seu direito de tocar quando quiser, levar para onde mais convier, fazer o que seu instinto primitivo disser, me obrigar ao que eu não quiser.

Nasci com um crachá que me rotula como “ser a ser moldado pelo mundo”, de forma que fique mais fácil de ser aceita no mundo. Afinal, o mundo nos fará arrepender de ser diferente do que ele almeja para nós. Mundo, mundo, mundo… Mundo? Nem tanto. Nem todos. Você é diferente, sua amiga pensa de outro jeito, sua vizinha também não quer fazer uso desse rotulo que colocaram em meu crachá. Eu sei, são todas como eu.

O problema não é todo o Mundo, o problema é uma gigantesca parcela dele que insiste em querer molda-lo a sua maneira. O problema esteve em minhas tias que me disseram para andar como moça ao invés de correr feito um cavalo.

” – Parece um menino, tá doido!”

O problema sempre estará nos crachás. São eles que ditam o que você DEVE SER, nunca o que você quer ser. Querer não é poder , afinal. Mas eu quis! Então fiz uso de um pincel permanente para escrever de forma escarranchada em meu peito:

APENAS EU

Eu quis ser, então eu serei. Serei a menina que corre como cavalo/menino, que fala alto, usa samba canção enquanto está na frente do marido e fio dental quando está sozinha em casa.

Serei a feminista, já que ele me deu o tal pincel permanente; serei a dona de casa, porque ninguém mais tem capacidade de cuidar da minha casa melhor do que eu; serei a vadia; a recatada, a chefe, a menina, a mãe, a grossa, a meiga.

Mas sabe o que eu nunca mais vou ser? A presa.