Dama da noite – por Ana Paula Lopes

No princípio, era apenas uma estrela, um pequeno ponto brilhante entre tantos que enfeitava a infinita escuridão daquela noite de outono. Não era nenhuma estrela especial. Apenas uma ideia solta, flutuando no céu. Sabe-se lá por que razão não se perdeu no espaço. Talvez porque soubesse que ser somente mais uma entre tantas não era suficiente, talvez porque estivesse presa a Terra, porque estivesse presa a você.
Todas as noites a estrelinha aparecia no céu e ficava horas piscando consigo mesma, tentando de todo modo imaginar o que se passava em sua mente. Pobre estrelinha… descobriu que, na verdade, o que a prendia a você era amor, em toda a sua pureza e simplicidade.
Mas uma estrela não pode amar um homem. Ela está tão longe, tanto que seu calor nunca tocaria o coração de seu amado. Pôs-se, então, a chorar lá do céu. Vendo as lágrimas de luz que lançava sobre a Terra, a bondosa Lua se compadeceu da estrela:
– Diga-me, filha, por que chora?
– Meu amado, senhora Lua, nem sabe que existo. Eu, daqui de cima, só posso brilhar e esperar que ele me veja. Mas parece que ele nunca olha pra mim…
– Compreendo sua dor. Gostaria de poder ajudá-la de alguma forma.
– Oh, não! – disse a estrelinha se apagando entre soluços – A menos que consiga me mandar à Terra, não há nada que possa fazer. 
A Lua sorri redondamente mostrando toda sua face iluminada de sol. 
– Acho que posso ajudá-la… – respondeu a Lua – mas você deve saber que para descer até ele, não poderá ir com sua forma original. Diga-me o que gostaria de ser, entre qualquer dos seres terrestres, e lhe realizarei o pedido.
A estrelinha lançou um ultimo brilho sobre você, que estava sentado sozinho na praça com uma flor nas mãos, pensando em sabe-se lá o quê…
– Faça de mim uma flor – pediu a estrelinha – mas que possua o mais doce perfume, para que ele saiba que estou lá.
Assim a Lua fez. Logo que a cidade adormeceu, ela desceu à Terra, mas já sem seu brilho de estrela, agora era uma flor, tão branca, tão pequena e tão delicada que passaria despercebida a olhos desatentos. Seu perfume, porém, era tão doce que chegava a ser enjoativo a narizes mais sensíveis. 
Orgulhosa de si mesma, a estrelinha que agora era flor, agradeceu a Lua com um balanço de suas folhas ao vento, ao que a Lua respondeu com um sorriso de luz.
Com o passar dos dias, a flor crescia e expandia rapidamente seus ramos e flores, mas você parecia não se importar com a presença de uma nova planta na praça. Vinha até ela, sentava-se ao no banco seu lado, mas nem olhava para a pobre flor que insistia em envolvê-lo com seu perfume. 
O que haveria de se passar em sua mente sempre que vinha para a praça se assentar naquele banco? E a flor se irritava por não entender você. Queria gritar para que você ouvisse, queria que você a notasse ao seu lado. Mas flores não falam, assim como as estrelas.
Foi quando a flor percebeu que se as estrelas não podiam amar um homem, as flores também não, pois nenhuma das duas tem o poder de confessar esse amor. De que valeu então abandonar sua vida de estrela para se tornar uma simples flor presa a terra por suas raízes que não a deixavam se mover? Como doía vê-lo partir todas as noites sem que nada ela pudesse fazer que não fosse deixá-lo ir.
Se uma flor pudesse chorar, aquele seria o momento, já que havia se tornado tão simples, se rendido tão completamente a um amor impossível. Uma flor não podia amar um homem, pois este nunca entenderia este amor. 
Numa dessas noites que você ia a praça, a flor conseguiu, enfim, ver o motivo de seus passeios noturnos por ali. A sombra de uma moça que se formou pela janela atraiu como ímã seus olhos atentos. Era ela a dona de seu coração.
A florzinha ficou triste, pois sabia que não podia competir com uma mulher de verdade, nem que fosse somente com sua sombra, pois flores não têm olhos sedutores, nem lábios delicadamente pintados. Nunca poderia abraçá-lo, nem sequer dizer o quanto o amava.
Então a florzinha chorou lagrimas de orvalho. Lágrimas que foram logo acolhidas pelo brilho da bondosa Lua.
– E desta vez, minha filha, por que chora?
Pobre florzinha… Soluçava perfumosa de arrependimento. Como pode acreditar que o simples fato de estar na Terra faria você se apaixonar? Respondeu envergonhada de sua ingenuidade:
– Meu amado, senhora Lua, nem sabe que existo. Eu, daqui de baixo, só posso me perfumar e esperar que ele me veja, mas parece que nunca olha pra mim… Acho que me enganei. Ser flor de nada adianta.
– Pois me diga então o que gostaria de ser?
A flor suspirou a brisa da madrugada. Sabia o que queria, mas sentiu medo de estar novamente enganada ou se arrepender mais tarde. E o temor se tornou maior do que a força que ela tinha para lutar pelo seu amor. Talvez aquele fosse mesmo um amor impossível. Até que ponto vale a pena lutar por uma utopia?
– Se não for pedir demais – a flor secava nas folhas suas lágrimas de orvalho – gostaria de voltar para a minha antiga vida no céu. Voltar a ser estrela.
A Lua se espantou com o pedido.
– Mas e o seu amado? Vai desistir do amor sem lutar por ele? Vai deixar o pessimismo vencê-la assim?
– E de que vale ser otimista se a realidade nos mostra sempre o quanto nossos sonhos não se realizam?
A Lua foi obrigada a aceitar a opinião da florzinha. Porém, naquele instante, lhe veio uma luz, uma idéia que poderia ajudar a pequena flor.
– Eu lhe tenho uma sugestão – sorriu a Lua – Eu lhe transformo em mulher, por uma única noite, para que possa confessar seu amor. Voltarei para saber sua decisão final.
E assim aconteceu. Na noite seguinte, assim que você se sentou na praça, a Lua lançou sobre a florzinha um raio de luz encantado e a florzinha se transformou na mais bela moça que você já tinha visto. A pele tão branca, macia e aveludada que mais lembravam as próprias pétalas da flor que havia sido. Os olhos eram brilhantes como um par de estrelas roubadas do céu. O cabelo longo e negro como a noite lhe caia sobre um dos ombros, transado com flores, e o vestido que lhe cobria o corpo era de uma seda branca nunca vista por ninguém.
Vendo-se naquele corpo, a florzinha (que antes era estrela e agora era mulher) soube o que deveria fazer. Viu a sombra da moça na janela e, engolindo seco, foi até você.
– Boa noite. – ela disse sorrindo.
– Boa noite. – você respondeu.
A moça pensou por um instante e continuou:
– É sua namorada? A moça da janela?
Você se espantou com a pergunta atrevida da moça. Pensou por um momento e respondeu:
– Não.
– Mas você gosta dela, não é verdade?
Você já ia responder quando se deu conta da situação: estava falando de sua vida particular com uma desconhecida que acabara de chegar e que, julgando pela aparência dela, nem era dali.
– E quem é a senhorita?
– Eu… – ela pensou – Sou uma amiga. Mas você não respondeu a minha pergunta. Você ama aquela moça?
– Amo, mas de que adianta? Ela nem sabe que eu existo… Eu, pobre que sou, não sou digno nem mesmo de sua sombra projetada na janela. Daqui da praça, tudo que posso fazer é apreciá-la em seu quarto e esperar que, quem sabe um dia, ela me veja, mas parece que nunca olha pra mim.
A moça compreendeu, pois percebeu que mesmo entre seres de uma mesma espécie, poderia existir amor não correspondido. Que você sofria do mesmo mal que ela, sem que nenhum dos dois tivesse coragem para se declarar. Estava ali um perfeito triangulo amoroso. Mais uma vez o silêncio se espalhou pela praça.
Foi nesse momento que a moça soube que a coisa certa a fazer, nem sempre é aquilo que mais nos agrada. Que amar muitas vezes significa fazer sacrifícios para ver a pessoa amada feliz. Percebeu que juntos nunca ia dar certo. Era mulher a menos de cinco minutos, o que ela poderia saber sobre a vida em sociedade, sobre civilização, sobre família, sobre ser mulher? Ser humana exigia responsabilidades que ela desconhecia. E uma estrela nasceu para brilhar por conta própria e não para depender de outro ser. Mesmo que esse ser fosse você.
Tirou de seu cabelo cada uma das flores e, com elas, fez um belo buquê. Colocou-o em suas mãos como se entregasse a você o puro coraçãozinho dela e disse num sorriso triste:
– Tome estas flores. Entregue-as a sua amada e diga o quanto à ama. Ela saberá retribuir esse amor.
Dizendo isso, ela lhe abraçou forte e longamente. O abraço que esperou tanto para receber era agora um abraço de despedida. E a moça chorou sobre seu peito. Pela primeira vez, eram lágrimas reais, lágrimas doidas e apaixonadas que você não compreendeu. Então ela o deixou ir. 
E você foi. Quando olhou para trás e não viu mais a moça, pensou ter tido uma alucinação. Mas as flores eram reais e as lágrimas em seu peito também. Você bateu à porta. Uma velha senhora atendeu.
– Como posso ajudá-lo?
Você hesitou por um instante antes de responder:
– A sua filha está em casa?
A senhora soltou uma risada.
– Filha? O moço deve ter se confundida de casa. Eu moro sozinha.
Você se sentiu tonto. Ou aquela mulher não queria que você falasse com sua filha ou algo muito estranho estava acontecendo. Não era aquela mulher a dona da sombra na janela, pois a sombra ainda estava lá. 
– A senhora tem certeza que não mora com outra moça em casa?
– Claro que sim – a senhora respondeu um pouco desconfiada. – Só eu de Deus.
– Mas a sombra de uma moça que eu vejo todas as noites com a senhora, de quem é?
A senhora sorriu. Você não entendeu. Então ela o levou até o quarto de sua amada. 
– Viu? – a senhora explicou – Este é meu atelier. Eu sou costureira. A sombra que você vê pela janela não passa de um manequim.
Você pediu desculpas e se afastou da casa entristecido. Trazia o coração partido por saber que tinha se entregado a alguém que não era real, a uma simples imagem, uma boneca. O perfume das flores em suas mãos ainda o envolvia, lembrou-se da misteriosa moça e olhou para o céu. Mal sabia você que quem mais sofria com isso era a pobre estrelinha, que desistiu de seu grande amor por uma mentira.

Quem escreve

                                
Sou Ana Paula Lopes, jornalista e mestranda em Linguística da UFV. Natural de Viçosa, já me classifiquei em dois concursos de literatura nas categorias conto e história infantil. Sinto-me muito feliz em poder contribuir com o blog mostrando um pouquinho do meu trabalho.

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