Sobre o tablado

Foto: reprodução/internet
Os pés sobre o tablado, movendo-se em um ritmo ora lento, ora frenético. As batidas compassadas na madeira chegam a criar uma melodia. A ausência de música passa despercebida diante dos movimentos do casal.
O tecido leve do vestido dela esvoaça a cada passo. Um rodopio, um salto, pernas ao ar. Ele mantém o contato visual todo o tempo ao se aproximar dela. Os dois estão unidos agora, fazem todos os passos assim. Em um abraço, com seus movimentos mais sincronizados que nunca.
Sapatilhas deslizando pelo chão, corpos se deslocando graciosamente. Mexendo seus quatro braços, entre encantadores arcos e retas perfeitas. Feições serenas e ao mesmo tempo apaixonadas, olhos faiscantes e lábios movendo-se como se cantarolassem mantras silenciosos.
Os dois corações aceleraram violentamente, mas sempre no mesmo ritmo. Chega o momento do ápice, que exige de ambos a mais perfeita precisão. Se afastam lentamente, primeiro pela cintura, depois desprendendo os troncos, os braços e só então largam-se as mãos.
Andando graciosamente ela se afasta, enquanto ele se prepara. Ela corre com a levesa de uma garça prestes a levantar voo. Ao chegar no ponto exato, salta. Ele a ampara no ombro, e com uma delicadeza sublime vai rodopiando-a ao redor do próprio corpo, envolvendo-se por ela até os pés da bailarina tocarem o chão.
Gradativamente, seus batimentos cardíacos vão abrandando enquanto tornam a dar passos mais leves, mais uma vez unidos. Ele ergue-a do chão pela cintura, e ela rodopia ao pisar novamente no tablado.
Olhos, cabelos, braços, pernas, tronco, mãos, dedos. Corpo, pele, perfume, som. Passos finais. Mais uma vez, ele a suspende, fitando seus olhos. Desce seu corpo lentamente até que ela possa ficar nas pontas dos pés. Mãos, rostos, nuca, olhos. Lábios.
Se fecham as cortinas. Mas não há cortinas. Nem público por detrás delas, nem cenários na frente, nem palco, nem teto, nem iluminação. A única luz emana deles. Tudo que há são os dois e dois corações na mais perfeita melodia embalando a mais perfeita das danças.
Tamires Arsênio
Me segue aí!

Tamires Arsênio

26 anos, mineira, jornalista por formação, escritora por amor e atualmente envolvida nuns 2930281 projetos (a maioria sobre protagonismo feminino). Feminista, bem bruxona mesmo. Corvinal até o tutano, mesmo que o Pottermore teime que não. Ainda esperando que o Doctor pare com a TARDIS à minha porta e me chame pra ser companion.
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