Sara – por Rebeca Almeida

 
Reprodução/Internet
De certa forma, aquele vestido florido era perfeito para o dia. Sara soube disso assim que terminou de abotoar todos os botões, que iam desde a altura do peito até a barra da saia florida. Ela se encarou no espelho por alguns instantes, não precisou de mais que cinco minutos para se arrumar. Não era dada a muita vaidade, e por mais que ainda fosse jovem, costumava de vestir como uma senhora. Pegou um grande chapéu de palha e colocou na cabeça, escondendo os longos cachos dourados. Depois, pegou o pouco dinheiro trocado que tinha e colocou no bolso do vestido. 
Quando chegou na sala, Roberto já estava pronto também. Ele usava uma camisa social branca, cuja qual Sara teve grande dificuldade para deixar alva daquela maneira. 
– Bom dia, querido!
– Ela disse enquanto beijava sua bochecha e dava para ele seu melhor sorriso. Ele não retribuiu, ficou murmurando alguma coisa, ao mesmo tempo em que lia o jornal matinal. 
Ele já havia feito café e se servido, então ela pegou apenas um caneca no armário. Sentou-se na mesa e começou a passar mateiga em um pedaço de pão. Ricardo não tirou a cara de trás do jornal. Sara teve que se contentar com o rosto de algum político corrupto estampado no papel.
– Você dormiu bem? – Ela perguntou com a boca cheia de pão.
– Pare de falar com a boca cheia. E anda logo, temos que sair daqui a pouco.
Enquanto terminava de comer, também deu uma olhada no periódico, no caderno de entretenimento e depois nas manchetes de um modo geral. Não teve muito tempo de ler com calma porque assim que Roberto terminou de comer ficou apressando a esposa para que saíssem logo.
– Já são 8hs, já devem estar nos esperando. Vamos.
– Calma – Ela respondeu com um sorriso. Estava muito feliz para se preocupar junto com o outro.
– Eles marcaram oito e meia, já são oito e nós ainda nem saímos de casa! – Ele estava começando a ficar mais chateado que o normal.
– Tudo bem, deixa só eu deixar a caneca na pia. Ela foi até o local, deixou o objeto lá e depois colocou a mão no bolso. Roberto já estava na frente do carro nesse meio tempo.
Finalmente entraram no fusca vermelho bordô e ele seguiu dirigindo até a rua principal.
Depois seguiu rumo à autoestrada. Estavam ambos calados desde que saíram de casa. Ele olhava fixamente para frente enquanto ela estava perdida em reflexões. Algum tempo passou até que Sara cortou o silêncio:
– Querido, por favor, pode parar aqui?
– Pra quê?! – Ele perguntou, já nervoso. Roberto tinha o defeito de perder a paciência com qualquer coisa que Sara pedia. Sara por sua vez, passou tempo demais tentando ter paciência com esse defeito dele.
– Por favor, é rápido. – Ela tentou bajular.
– Não! Aguenta até lá, a gente já está atrasado.
– Roberto, pára o carro ou eu estouro seus miolos. – Ela falou subitamente, com um pequeno revólver encostada na têmpora do homem.
Roberto tomou um susto, esboçou um sorriso e perguntou se Sara tinha enlouquecido.
– Pra falar a verdade, eu nunca estive tão sã em toda a minha vida. – Ela respondeu com seu melhor semblante. 
Depois, atirou. Um único disparo fez com que os miolos se espalhassem e sujassem parte do carro. O veículo derrapou até o acostamento. Sara que estava segurando a arma com luvas, com cuidado colocou o objeto nas mãos do cadáver e saiu. Andou por algum tempo, cerca de dois quilômetros. Depois pediu carona e conseguiu de um caminhoneiro. Ele ia até a cidade vizinha, disse. Ela sorriu, respondendo que era exatamente para onde queria ir. Na chegada deu algum dinheiro para o homem. Depois foi até a rodoviária pegar um ônibus para outro estado.

Quem escreve

                       
Rebeca Almeida é baiana, estudante jornalismo, escritora e desenhista. De modo geral gosta de coisas “nerds” mas odeia ser enquadrada nesse rótulo. Na verdade não gosta de rótulos de forma alguma

MEU REAL – PARTE 1

Reprodução/Ultra Curioso

 
Ao chegar da noite, ela sempre corria para as estrelas.

Céu escuro, nenhuma nuvem, a bela lua, os astros reluzentes,… esse era o seu cenário preferido. A noite, as árvores e ela. Era assim que se sentia a vontade para se abrir. Talvez porque as estrelas, ao ouvirem seus desejos, não a criticavam. Ao contrário, elas cintilavam juntamente com o seu olhar.

Você não deve estar entendo, vou começar do início. Era uma vez…

Uma garota cheia de medos, sonhos, limitações, planos e dúvidas. Principalmente dúvidas! Ela não sabia quem queria ser, aliás, ela queria ser muitas pessoas. O que ela não sabia é quem era de verdade.

Não lhe faltavam inseguranças. Daí todo aquele receio em se mostrar, era melhor ser como todos eram, como todos queriam que fosse. Por isso, ao chegar da noite ela corria para as estrelas, pois elas sabiam ouvir todos os seus anseios. A lua iluminava seu coraçãozinho sonhador. Era apenas com aquelas amigas que ela se sentia segura para “se sentir” de verdade.

Mas era necessária uma mudança, uma libertação, ela precisava sair das sombras dos outros, precisava se libertar do medo que sentia dos outros.

Esse dia chegaria. O momento certo em que as estrelas a levantariam alto o suficiente para que todas as galáxias ouvissem quando ela gritasse: 

 _ Essa sou eu, isso faz parte de mim. Ninguém me impedirá de ser/fazer o que amo. Nem eu mesma!

Mulheres que representam!

   

Oi pessoal. Tudo bem com vocês? Querem que fique melhor? Então vieram ao lugar certo.
O post de hoje será um dos queridinhos dos fãs da representativa, pelo menos eu me senti super representada. Quem não se sentiria? Como lançamento da coluna “Mulheres que amamos”, trago para você uma lista com cinco lindas desse planeta que aproveitam seu tempo para melhorar nosso mundinho.
Sejam famosas ou não, essas manas possuem muito o que falar e fazer. Eu as tenho como algumas de minhas inspirações. Suas atitudes e escolhas de como se posicionar perante a sociedade servem para nos ensinar sobre lutas, sejam em âmbito pessoal e/ou através da união. As descrições que fiz sobre cada uma podem ser curtas, mas de forma alguma diminuem a grandeza de suas existências.
Vamos as apresentações?

  • Catharina Dória

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    Fonte/Internet
    Catharina Doria é uma estudante que, com apenas 17 anos, decidiu trocar sua viagem de formatura para poder usar o dinheiro na criação de um novo aplicativo, chamado “Sai Pra Lá”. A intenção dele é mapear casos de assédios nas ruas. O app facilita a denúncia, divulga os lugares em que há esse tipo de ocorrência e intimida os agressores.
    • Amandla Stenberg

      Fonte/Time
      A atriz é inspiradora não só pelo trabalho que faz, como também por seu posicionamento contra o racismo na Internet, manifestando-se contra a apropriação cultural e o estereótipo da “mulher negra raivosa”. Nesse vídeo, MARAVILHOSO, podemos ver como o posicionamento da Amandla é importante nas lutas que ela representa. Ela também entrou para a lista dos “100 Adolescentes Mais Influentes do Ano” (de 2015) da Revista Time e está envolvida com a “Partilhe nossa Força”, organização que luta para acabar com a fome infantil nos Estados Unidos.
      • Kaol Porfírio

        Fonte/Twitter

         Kaol é ilustradora, desenvolvedora de jogos, gamer e criadora da maravilhosa série “Fight Like a Girl” (“Lute Como Uma Garota”), que destaca guerreiras inspiradoras de games, filmes, séries e também da vida real. A ideia até original uma coleção de camisetas que é vendida em parceria com a Toda Frida, pra você ajudar a passar a mensagem pra frente e mostrar que lutar como uma garota é motivo de orgulho!

        • Camila Pitanga

          Fonte/Internet
          A atriz brasileira foi a primeira personalidade das Américas a receber o título de embaixadora da ONU Mulheres. Ao entrar no site ONU Mulheres, encontramos as seguintes realizações dela: “diretora geral da ONG Movimento Humanos Direitos, onde se dedica contra o trabalho escravo, abusos contra crianças e adolescentes e na promoção de direitos de jovens negros, quilombolas, povos indígenas e meio ambiente; foi conselheira da WWF e apoiadora de campanhas da Anistia Internacional “Jovem Negro Vivo – #EuMeImporto”; do Greenpeace contra o desmatamento; do MhuD contra a prostituição infantil e contra a terceirização do trabalho”, e essas são só algumas de suas realizações. Que mulher!
          • Gabourey Sidibe

               
            Gabourey é uma atriz norte-americana que atua na serie “Empire”, onde protagonizou uma cena de sexo explícito ao lado do ator Mo McRae. Por causa disso, ela sofreu ataques nas redes sociais por conta de seu físico, negro e gordo. Ela não se abalou e ainda inspirou a hashtag #MyFatSexStory (Minha Grande História de Sexo, no trocadilho em inglês), onde usuárias e usuários reagiam contra a gordofobia.
            Ficaram fã que eu sei! Mas não acabou por aqui, eu trarei muitas outras mulheres para amarmos. Obviamente, como somos um blog que colabora e recebe colaborações, queremos que tragam suas inspirações aqui pra gente. Eu sempre fico feliz quando conheço mais ações representativas, o poder delas sempre nos trará mais e mais exemplos como os dessas mulheres.
            Espero que vocês gostem de ler tanto quando gostei de escrever e que o exemplo delas entre em seus corações e não sai mais!

            Sobriedade Ébria

            Imagem: Reprodução/Internet

            Acordo com a cabeça ainda rodopiando sem parar. Nos ouvidos parece que entra uma banda inteira de percussão que, auxiliada por um zumbido distante, cria uma música mal orquestrada. O corpo parece sustentar o peso de um lutador de sumô, mesmo ocupando pouco mais que o espaço de uma bailarina.

            Antes de levantar, levo as mãos lentamente ao rosto, detectando crostas de rímel e delineador onde não deveriam estar. Ótimo. Como se minhas olheiras precisassem de ajuda para ficarem mais escuras. Mas já estou acostumada a não ser uma bela visão pela manhã. Com a aparência de uns 40 anos e os reflexos e a velocidade de pensamento de uma senhora de 80, não seria um pedaço de papel plastificado que me convenceria ter apenas 27.

            Depois de quase cinco minutos parada na mesma posição, baixo o braço e percebo uma presença da qual me esquecera. Ao meu lado ainda repousa em sono profundo um conjunto de ombros largos, pernas compridas, barriga um pouco saliente e cabeça de menino. Não consigo reprimir a raiva por aquele rosto angelical permanecer imaculado, enquanto o meu parece o retrato do inferno.

            Pudera, aos 22 anos minhas ressacas também eram leves como a dele. Como eu fui ficar tão mais suscetível aos efeitos do álcool em apenas cinco anos? Ok, antes eu era mais fã de cerveja e vinho, e minha inseparável companheira atual, a vodca, sempre teve a fama de arrasadora. Mas não dá para negar que as visitas que ela me fazia naquela época não deixavam tantos estragos.

            Ainda remoendo a inveja pelo novinho, me levanto, tentando tomar o cuidado de não acordá-lo. No fundo, acho que eu poderia cair sobre ele que não o despertaria. Quais são as chances de um organismo tão fresco e vivo ter entrado em coma alcoólico? Não, seria muita canalhice se mesmo assim ele continuasse bonito. E eu posso ter levado muita pancada da vida, mas sei que ela não pode atingir esse nível de injustiça.

            Vou cambaleando até o banheiro, desesperada por uma ducha gelada antes de ir tomar um café bem preto. Passo reto pelo espelho, tentando evitar o contato com meu reflexo até mesmo pela visão periférica. Com certa dificuldade, puxo a porta de correr do box; aquela porcaria sempre trava, e é lógico que ela iria fazer o máximo de barulho justo quando eu quero ser silenciosa. Mas, aparentemente, isso não incomoda o rapaz na minha cama.

            Entro e vou direto abrir o chuveiro, distraída. Foda-se se eu molhar o resto do banheiro todo, depois eu seco. Melhor que sofrer de novo para fechar essa porcaria dessa porta. No entanto, segundos antes de a água começa a cair, percebo uma calcinha pendurada na torneira. Turquesa, toda de renda e definitivamente não é tamanho PP. Não é minha. Eu só uso preto ou branco e sempre de algodão, porque é o máximo que se consegue fazer quando compra lingerie – e qualquer roupa, na verdade – na sessão infantil.

            Aí sim, finalmente, minha amnésia alcoólica vai passando. Maldita vodca. Primeiro, me vem um flash daquela mesma calcinha, dessa vez envolvendo um corpo bem mais desenvolvido que o meu. De pele morena, cheia de curvas e apresentando uma desenvoltura de fazer inveja ao tirar a calça jeans. Os olhos fixos nos meus, enquanto o garoto (que agora dorme feito uma pedra) beijava sua nuca. Mas a lembrança das ações dele são borradas, porque claras me vem apenas as dela.

            Logo em seguida, me recordo do sorriso que ela me deu no bar onde eu estava com esse rapaz, num encontro às escuras organizado por uma amiga em comum. Além de bonito, ele era até interessante e eu nunca me incomodei com idade, mas sua falta de atitude durante a conversa denunciava: se não era virgem, só transara com uma única pessoa. Com esforço, me obrigava a lembrar de que ele estava saindo de um namoro longo e o dava um desconto.

            Mas isso não foi o bastante para que eu evitasse trocar olhares com aquela morena que me comia de longe. Vez ou outra eu sorria de volta, quando o garoto levava o copo de caipirinha à boca e me ignorava por uns segundos. Ela demorou mais umas três doses nossas e duas dela para vir nos abordar em nossa mesa. Àquela altura nossa conversa estava descontraída, mas nada íntima, então nenhum dos dois se opôs à sua interação.

            Ela disse que se sentia incomodada de beber sozinha na outra mesa e que já havia visto meu companheiro de conversa umas duas vezes na faculdade. Isso fez com que eu me perguntasse se ela era tão jovem quanto ele – o que não parecia. Minha dúvida foi esclarecida com alívio quando ele se recordou de que ela era veterana do curso em que ele havia acabado de ingressar.

            Depois de mais umas duas doses, nós três parecíamos amigos de longa data e ríamos e conversávamos alto demais para um bar tão pequeno. Eu sentia o olhar crítico dos outros frequentadores atravessando a nossa pele, e parecia que não era a única a perceber. Num rompante, ela se lembrou de que havia uma baladinha open bar rolando ali no bairro. Até que não era má ideia. Concordamos.

            Ela se levantou e me puxou pelo braço, fazendo subir um calafrio pela minha coluna. Esse verão infernal nos obriga a sair com roupas frescas até à noite, então nossa pele não podia deixar de se roçar. Ao garoto ela apenas estendeu a mão, que ele logo apanhou e lá fomos nós, um apoiando o outro, atrás da próxima parada da noite.

            Outro flash me vem à mente, dessa vez de nós duas dançando juntas e provocativamente na pista, enquanto nosso parceiro de noitada apenas nos observa. Nenhum dos três podia reclamar de não estar se divertindo. De olhos sempre colados uma na outra, estávamos mais soltas que nunca. Antes de finalmente partirmos para o meio da multidão, tomamos mais uns três ou quatro drinks na periferia da balada.

            Com o efeito do álcool a toda, eu só queria extravasar. Enquanto dançávamos, íamos nos aproximando mais a cada segundo, o primeiro passo sempre dado por ela. Logo estávamos a poucos centímetros de distância, distância essa ficando ainda mais curta dependendo do movimento que fazíamos na dança. Para sua surpresa – e minha também, lembrando agora – fui eu quem aboliu por completo o espaço entre nós e levei meus lábios aos dela. E foi só o primeiro dos vários beijos que demos àquela noite.

            Em seguida, me assaltam várias imagens de nós três no meu apartamento, nossos perfumes misturados ao cheiro do álcool que exalava não apenas de nossas bocas (quase sempre ocupadas umas com as outras), como de nossos corpos cada vez mais quentes. Eu tentava aproveitar ao máximo aquelas duas pessoas ali em minha presença, mas minha atenção sempre se voltava para ela. Não que o garoto estivesse se saindo mal, mas ela parecia ter uma força intensa que me atraía de forma inexplicável.

            Ela, por sua vez, parecia não estar muito preocupada em dividir seu tempo entre nós dois. Dava atenção para ele apenas de vez em quando, quase sempre porque eu estava fazendo o mesmo. Seu interesse parecia ser mesmo em mim. Não foi difícil desconfiar que ela desejava que estivéssemos apenas nós duas naquele lugar. Em geral, era a minha boca que ela beijava, o meu corpo que ela explorava e o meu prazer que ela propiciava.

            Mas… E agora? Onde ela está? Antes de entrar no banho não ouvi qualquer som que denunciasse sua presença, nem percebi qualquer outro traço seu antes dessa calcinha pendurada na torneira. Minha última lembrança da noite anterior foi de ter adormecido entre meus dois parceiros, então também não vi quando ela acordou. Agora me lembro que ela não me disse seu nome…

            Por ideia dela, nos chamávamos por apelidos a noite toda. Ideia de bêbado, mesmo. Eu era Lolita, menção ao meu pequeno tamanho. O rapaz (cujo nome eu até sabia, mas agora simplesmente não consigo me lembrar) era Romeu. E ela era Capitu. Não poderia ser mais preciso. Não apenas seus olhos eram de ressaca, como suas lembranças só fazem piorar a ressaca pela qual passo agora. Ela veio como uma onda e foi embora da mesma maneira, sem nem se despedir…

            Só quando já estou fechando o chuveiro que percebo que me esqueci de pegar uma toalha. O banheiro já está todo molhado, e o calor continua infernal, então corro até a porta para pegar uma e me secar. Dessa vez sem me preocupar com a visão periférica, uma imagem fora de foco chama minha atenção e paro no meio do caminho, me voltando para o espelho. O vapor atrapalhou um pouco a nitidez da escrita feita com batom vermelho – o mesmo que ela estava usando na noite anterior –, mas ainda dá para ler perfeitamente.

            Fico por alguns segundos ali parada, encarando o espelho, que reflete meu corpo mirrado e meus seios minúsculos. Mas agora eu já não ligo para minha aparência de pré-adolescente. A água escorre de mim e molha o pouco do chão do banheiro que ainda estava seco, e isso também não me incomoda. Tudo que faço é sorrir e continuar encarando a mensagem. Em seguida pego minha toalha, me seco e me enrolo nela. Saio do banheiro cantarolando uma das músicas da balada da noite anterior.

            Dirijo-me novamente para o quarto, tiro o pedaço de pano que me envolve e me deito novamente ao lado do garoto. Dou-lhe um beijo de leve na boca, o que o faz se mexer e resmungar um pouco. Não está em coma, afinal, ainda bem. Não ia gostar de ter de levar ninguém ao pronto socorro a esta hora. Só me ocupo de fechar bem meus olhos e adormecer novamente, quem sabe até sonhar com a minha Capitu. Se for para encarar uma ressaca, que seja a dela, então.

            ‘A garota do trem’ de Paula Hawkins

            Como boa leitora, estou sempre à procura de livros, às vezes com listas intermináveis no meu Skoob, outras com a sensação de que não tenho nada que poderia me agradar. Enfim, um dilema muito comum entre os aficionados por linhas e mais linhas que teimam em acabar – sem mencionar, é óbvio, o desejo utópico de uma vantagem financeira que desse conta de uma sala de leitura repleta de obras a serem devoradas (e compartilhadas) no decorrer da minha vida. Mas, embora a fantasia, atualmente optei pelo uso de e-reader. E não é que gostei?!
            Já meio cansada de romances, me deixei levar por opções mais atípicas ao meu roteiro de leituras, e foi aí que descobri o thriller da escritora Paula Hawkins: “A garota do trem”, ou no original “The Girl on the Train”. Confesso que, a princípio, julguei que lidaria com uma trama muito próxima ao que foi proposto em “Gone Girl” (Garota exemplar), mas me enganei. Ainda que ambos tenham me agarrado pelas pernas, o livro de Paula Hawkins alimentou minha curiosidade logo nas primeiras páginas e, admito, confundiu pretensões anteriormente impostas aos personagens – todos eles.
            Narrado sob o ponto de vista de três mulheres (ou seria apenas uma entre elas?!), a posição assumida pela autora me persuadiu a “favoritá-la” na memória. Com isso feito, passei a indicá-la a amigos e companheiros dessa saga tão injusta imposta a nós leitores: tanto para ler, e tão pouco tempo para existir. Pois bem, sustentado pontos imprescindíveis que me mantiveram fiel à leitura, cabe ressaltar que o que mais me chamou a atenção no texto foi a ruptura de padrões propriamente assegurados às mulheres da maioria dos livros com os quais tenho lidado – pois o ato da leitura requer manejo com as emoções, percepções e inferências.
            Inicialmente ao estilo Bridget Jones, a protagonista Rachel conseguiu, na verdade, despertar lados mais sombrios e desconexos acerca da própria natureza humana. Movida pela curiosidade e, por que não, pela obsessão, a personagem parece dialogar com inúmeras situações de conflito não tão inverossímeis à nossa própria condição em sociedade. Logo, alcoolismo, traição e a sensação de vazio atravessam várias etapas da trama que não se entrega antes das últimas páginas.  Cabe a nós, como leitor, oscilar entre a compaixão dada aos personagens, mas, igualmente, a convicção de que ora ou outra nós também nos entregamos à confusão de alguns sentidos.
            Como não tenho a intenção de estragar impressões futuras, o que me resta é um convite à leitura. Então leia! E se de tudo isso que escrevi até aqui, algo lhe fez certo sentido, vai lá, corra para mais uma obra. Afinal, o que é mais um livro para quem já se rendeu ao universo inesgotável da criação literária?!  E se você, assim como eu, já leu esse livro, comente aqui o que achou. Ah, e se quiser me dar dicas de livros, meu Skoob vai adorar receber novas listagens…Um dia eu leio! Como tudo na vida. 

            Amar-se – por Luara Alves de Abreu

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            Ela tinha fome de amor. Ele tinha fome de atenção. Podiam combinar sim, tinham lá suas compatibilidades, vez ou outra assistiam aos mesmos filmes sem nem planejar e tinham os mesmos comentários sobre os conhecidos em comum. Mas quando as fomes são diferentes, o lugar onde se buscam apetites são outros, outras formas, outros corpos, outras bocas.

            Ela tinha Vênus em leão, se entregava sem pensar duas vezes e sabia cativar, mal sabia o quanto abusavam da sua boa vontade. Ele nem ao menos o significado de cativar sabia. O significado de receber ele sabia sim e muito bem. Recebia tanto que mal dava conta de segurar. Era como minha vó dizia, para ele era “só venha a nós e ao vosso reino nada!”

            Era um casal estranho e um tanto quanto infeliz. Um dia ela percebeu isso e disse que faria as malas, que iria embora sem data para voltar. Ele fez jogo baixo, chantagem emocional, disse que ela estaria desistindo de tudo. Ela sequer ouviu, fechou o zíper e pegou o próximo avião disponível para a viagem que há anos guardava dinheiro.
            Até hoje ele a espera voltar para ignorá-la fingindo não se importar, mas ainda assim esboçar um risinho no canto de boca como quem pensa “ela ainda pensa em mim”. Não assume, claro. Até porque arrumou outra pessoa, outro emprego, faz suas coisas, segue sua vida, cria outras ilusões. Mas nunca, nunca mais viu um sorriso com lábios rosados e carnudos iguais aos dela. Nunca mais ninguém o fez dormir com canções românticas. Nunca ele conseguir matar por completo a sua fome de atenção.

            E ela? Ela se deu conta que não tava desistindo de tudo não, pelo contrário, estava insistindo nela mesma. Matou finalmente sua fome de amor. Se deliciou ao descobrir seus prazeres. E não há amor mais real e sincero que esse, o amor próprio!

            Quem escreve

            Luara é geminiana com ascendente em câncer. Intensa por natureza, socióloga por profissão, atriz por paixão, bailarina por amor e feminista por dever!

            Carta para a nova geração de mulheres – por Luara Alves de Abreu

            Hoje os amores da titia fazem dois meses de vida e como coincidentemente é Dia Internacional da Mulher, vai ter post especial!

            Meninas, não gosto muito de chamá-las de princesas, porque na maioria das vezes, a ideia de princesa remete a uma mocinha indefesa a espera de um príncipe. Vocês não são nem indefesas nem precisam de um príncipe. Vocês são guerreiras desse o ventre! Heroínas por terem sobrevivido a uma gravidez de risco.

            Vocês continuarão sendo guerreiras por suas raízes também. Netas de nordestinos, negras pelo colorismo e além de tudo, mulheres. Que no futuro entendam a importância desse dia!
            Não sei como vai ser o mundo quando vocês crescerem, mas atualmente há muito machismo, muita arrogância e ignorância, preconceitos de cor e gênero por todo lado e eu espero de verdade que vocês saibam lidar com tudo isso resistindo com a força que sei que têm! Empoderem-se! E no futuro, dêem um tapa na cara da sociedade. Vocês podem ser o que quiserem, se tem uma coisa que vocês podem, é poder! 
            E isso inclui não serem mulheres, se não quiserem também, porque nós temos que estar cientes que gênero é construção social e pode ser que não necessariamente venha a corresponder ao sexo de vocês. Confesso-lhes que vou querer enfeitar vocês com os adereços que dizem ser ~de menina~, mas vocês não são obrigadas a seguir nenhum padrão que não as fizerem bem. Nem de gênero, nem de beleza. Toda mulher é linda a sua maneira. Encontrem a de vocês, não há necessidade de se adequarem a formas prontas. Lindo é ser livre!

            Unam-se! E não só por serem irmãs de sangue, mas porque a sororidade é a forma mais eficaz de derrubar o patriarcado. Nós não precisamos competir!

            O impossível não existe, mas é preciso crer. Transbordem-se. Permitam-se e sejam felizes!

            Quem escreve

            Luara é geminiana com ascendente em câncer. Intensa por natureza, socióloga por profissão, atriz por paixão, bailarina por amor e feminista por dever!

            Que me perdoem os monogâmicos, mas sexo a três é fundamental

               
                                                                                                             

            Tomei a liberdade de parafrasear Vinícius de Moraes, com o único propósito de reconstruir percursos “monocromáticos” da nossa vida sexual, em especial, a das mulheres. Embora criada para ser criança, adulta e assalariada, portanto, sem paralelos que dispusessem e esquadrinhassem toda a lógica onipresente e, por que não, onipotente da sexualidade, tão logo compreendi as maravilhas inequívocas de um bom e prazeroso sexo a três. Encerrada em um quarto sem televisão e com horários para comer, dormir e estudar, desde pequena alimentei a curiosidade primitiva da espécie humana de se tocar, e foi aí que tudo começou.
            Sob os lençóis de uma cama que mal me cabia em movimentos ainda desjeitosos, haja vista a tentativa incipiente de me fazer gozar, tentei exaustivamente descobrir meu corpo através da escuridão que monopolizava todo o meu quarto e que, hoje, a reconheço como metáfora de uma vida feminina, que, não raro, se mantém atada à necessidade de jamais enxergar – sua própria sexualidade.
             
            Ainda zelosa nos cuidados inseguros de não me dizer erótica, libertina, ou qualquer outro termo carregado de problemáticas conservadoras que remontam aos primórdios da nossa sociedade, sempre me mantive fiel à experiência de mim mesma. Me toquei em pensamentos, entre linhas e trechos de livros desconexos ou criados para alavancar imagens de uma memória ainda pouco à vontade com as descobertas do auto prazer, me toquei com travesseiros, filmes, revistas e, enfim, me toquei com os dedos.
            Desde então, descortinei tabus que maquiam a sexualidade e aprisionam pelos pés a mais audaciosa das mulheres. Agora grande, compreendo as vantagens de um dia ter me tocado e entendido, ainda que sozinha, que meu sexo e a capacidade de me autoamar já nascem comigo. Hoje, após, felizmente, também já ter descoberto os milagres de uma boa e bela lambida na boceta, me conservo partidária de um dedo no clitóris até que meus pés se comprimam e meu corpo ganhe uma pequena curvatura acentuada pela explosão súbita e impetuosa reproduzida por sinais sonoros que arranham todo meu corpo até ganhar os ouvidos do sujeito que integraliza a exigência nada pueril de um bom e saboroso sexo a três. 

            Uma ‘desaventura’

            De manhã, após se abrirem, os olhos iam se fixar no teto. Lá ficavam por dez, quinze, vinte minutos. Às vezes mais, às vezes menos, mas sempre lá. De vez em quando nem era manhã: comumente acordava após o meio dia. O pensamento não ia muito além daquele espaço com tinta descascada onde a vista se fixava. Era a letargia do despertar fazendo seu trabalho rotineiro.
            Em seguida, o desjejum era emendado no almoço, e não raro comia arroz e feijão acompanhados de uma xícara de café. Se havia alguém na cozinha conversava banalidades: fofocas da vizinhança, programas da TV aberta, convites para aniversários da família. Às vezes ouvia alguma notícia sobre chances de emprego. “Vai lá, conversa com fulano, quem sabe você não consegue alguma coisa?”.
            Já fazia dois anos, e nunca conseguia. Quando não era informação furada, era um emprego com exigências demais para sua pouca (quase nenhuma) experiência. Desde a formatura só fazia bicos e no máximo conseguira ficar por dois meses numa loja. Foram os piores. A falsa sensação de independência que o salário medíocre conferia não compensavam o cansaço e as amolações.
            Com as tardes seus olhos passavam a se ocupar com as telas. O smartphone e o computador faziam certo trabalho de distração, mas era defronte à TV que passava a maior parte do tempo. Assistia principalmente a filmes, fosse no sistema por assinatura ou baixados pelo computador. Gostava de todos os gêneros, em especial os de aventura. O que era uma ironia, já que sua vida nunca tinha nenhuma.
            Vinha a noite, chegava a madrugada, e prosseguia na mesma atividade. Geralmente só a concluía depois das três da manhã, quando começava a sentir um pouco de culpa. Sempre desligava os equipamentos pensando em dormir mais cedo, cuidar da saúde. Com isso pensava que também precisava comer melhor, se exercitar…
            Ia se deitar, repousava as pálpebra sobre os olhos cansados e deixava o sono vir. Se não vinha, tentava contar carneirinhos ou qualquer outra técnica em que, no fundo, não acreditava. Tanto podia apagar de vez, quanto revirar na cama a noite toda sem sucesso. Nessas ocasiões, a frustração era o bastante para não permitir que seus pensamentos fossem muito além do incômodo de não dormir.
            Esses hábitos, com suas pequenas variações, se repetiam cotidianamente. Os sábados e domingos não diferiam muito do resto da semana. As quebras de rotina vinham com um ou outro compromisso trivial. As tais festas de aniversário, uma ida às compras, ou as raras ocasiões em que aceitava os convites dos amigos para sair. No mais, cada dia era semelhante ao outro e nada de novo acontecia.
            E era somente nos poucos momentos em que a mente se permitia divagar que o marasmo com o qual se acostumara vinha incomodar. Quando o teto do quarto não vidrava seus olhos, quando as telas não capturavam sua distração, quando a falta de sono não virava a atração principal: era então que questionava sua vida.
            Parecia que nada havia dado certo até agora. E, também, o que havia feito para que desse? Esperar por um emprego não estava funcionando. Será que era hora de mudar de estratégia? Seguir outro rumo, buscar outro sentido para as coisas. E se não fosse estabilidade financeira o que realmente queria e precisava? Via as vidas de seus colegas de faculdade e eles se dividiam entre os que estavam trabalhando em grandes empresas e os que se encontravam naquela mesma situação. Talvez estivessem fazendo as escolhas erradas.
            Pensava nos filmes que via, ou mesmo nas notícias que lia de pessoas com vidas intensas e interessantes. Nunca vivera nada intenso ou interessante. Durante o curso, optara por se concentrar em sua grade curricular, dispensando uma oportunidade de intercâmbio. Agora, mesmo sem ter nada de seguro em que se agarrar, continuava optando por uma suposta ideia de estabilidade em vez de qualquer chance de aventura.
            Uma aventura. Sentia que era disso que precisava. Podia ser esse o momento de largar tudo, juntar as coisas numa mochila e sair em viagem pelo mundo afora. Mal conhecia outros estados. Outro país, então, só virtualmente. Já sonhara em visitar a Europa, a Ásia e a própria América Latina. Atualmente pensava muito menos nessas coisas, como em todos os seus outros sonhos.
            Não sabia se havia mais aventuras em que podia se jogar. As dos filmes geralmente eram aquelas coisas impossíveis. Talvez porque, nos filmes, quase sempre não são os personagens que procuram por ela, mas ela vai até eles. Tinha certeza de que ninguém viria lhe dizer que passara numa seleção para um reality show de sobrevivência, ou que tinha de ir em busca de um tesouro escondido que não sabia que tinha herdado.
            Talvez uma aventura pequena fosse suficiente. Ou uma grande, mas que pudesse manter enquanto continuava esperando pela estabilidade. E, aos poucos, ia diminuindo suas expectativas. Diminuindo e voltando para sua própria realidade, para sua rotina, sem saber se, no dia seguinte, o desejo por algo mais voltaria também.

            Entendendo melhor o que é esse tal de feminismo intersecional

            Reprodução/Pinterest

            Atualmente, temos visto várias vertentes do feminismo sendo citadas em conversas. A que eu vou tratar com vocês hoje é o termo Feminismo Intersecional.


            Esse termo é cunhado pela professora norte-americana Kimberlé Crenshaw em seu livro e ela o define como:

            A visão de que as mulheres experimentam a opressão em configurações variadas e em diferentes graus de intensidade. Padrões culturais de opressão não só estão interligados, mas também estão unidos e influenciados pelos sistemas intersecionais da sociedade. Exemplos disso incluem: raça, gênero, classe, capacidades físicas/mentais e etnia.

            Para entenderem um pouco melhor sobre o que estamos falando, vou explicar da seguinte forma, intersecionalidade fala sobre como os diferentes tipos de discriminação interagem. Não há um tipo de feminismo tamanho único e tanto as campanhas feministas como as antirracistas tem deixado as “mulheres de cor invisíveis na visão geral”. 

            Por exemplo, eu sou uma mulher negra e, como resultado, enfrento tanto o racismo como o sexismo ao caminhar em minha vida cotidiana. E nunca essas duas formas de discriminações passaram de forma separada em minha vida.


            Kimberlé Crenshaw em foto do seu twitter oficial
                                         

            Acho importante esclarecer, para uma melhor compreensão, que o termo foi utilizado inicialmente para verificar a aplicabilidade do feminismo negro em leis anti discriminação. Crenshaw citou em uma palestra o caso de Degraffenreid vs General Motors, em que cinco mulheres negras processaram a GM por discriminação de raça e gênero. “O principal desafio da lei é a forma como foi fundamentada, porque a lei anti discriminação olha para raça e gênero como elementos separados”, diz ela. “A consequência disso, é que as mulheres negras americanas — ou quaisquer outras mulheres não-brancas — vivem a experiência de uma discriminação por sobreposição ou conjunta. A lei, inicialmente, não estava lá para vir em sua defesa”.


            A principal coisa que a ‘intersecionalidade’ está tentando fazer, eu diria, é evidenciar que o feminismo, que é em certos discursos excessivamente branco e classe média, representa apenas um tipo de ponto de vista — e não reflete sobre as experiências de diferentes mulheres, que enfrentam múltiplas facetas e camadas presentes em suas vidas.

            Falando como exemplo pessoal, quando o racismo é levantado no feminismo, ele acaba sendo tratado da mesma forma de quando esse tema é proposto em qualquer outro espaço de debate. Os discursos banais habituais são usados ​​e a acusação de “dividir o movimento” é muitas vezes atirada ​​ao redor.

            Então, existem muitas opiniões acreditando que até que o movimento feminista majoritário comece a ouvir os diferentes grupos de mulheres dentro dele, ele corre o risco de se tornar estagnado e não será capaz de seguir em frente. O único resultado disso é que o movimento torna-se fragmentado e continuará a ser menos eficaz.