O ‘pequeno’ assédio nosso de cada dia

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Na época da campanha #meuprimeiroassédio eu não conseguia me lembrar de nada que eu tivesse passado e que se encaixasse na proposta. Eu lia os relatos das outras mulheres e, além de triste por elas, ficava assombrada por perceber que tanta gente já tinha passado por acontecimentos marcantes e cruéis. Eu só conseguia me lembrar das pequenas cantadas de rua, que não, não são bobagens, mas com as quais (infelizmente) toda mulher aprendeu a conviver. Mas depois eu me lembrei que eu tinha, sim, acontecimentos (e até rotinas) que me marcaram de forma negativa, mas que por algum motivo eu havia suprimido.

Quando eu tinha uns treze anos, eu morria de medo de voltar sozinha da escola, porque uns meninos (sim, meninos, de uns 9 ou 10 anos) sempre passavam a mão na minha bunda e me chamavam de gostosa se eu topava com eles fazendo o caminho oposto, saindo da escola deles. Eu passei a usar minha mochila-carteiro virada para trás, evitava esse horário, e sempre andava junto com uma colega que morava no caminho de casa – e que também morria de medo e desconforto pela situação.

Aos quinze, em um aniversário, um rapaz me chamou para conversar e, do nada, no meio da conversa, tentou me beijar. Eu neguei, mas ele insistiu um pouco. Eu era muito retraída e me senti tão mal que saí de perto dele, corri para o banheiro e vomitei. E quanto mais o amigo dele insistia pra eu “deixar de bobeira” e explicar ao menos “por que não”, pior eu me sentia. Por meses eu ficava mal quando lembrava disso ou via esse menino na escola, e escondi o fato, cheia de vergonha.

Aos dezessete, numa festa, um cara tentou me agarrar por trás enquanto eu procurava o banheiro. Ele provavelmente estava bêbado, o que facilitou que eu me desvencilhasse sozinha, sem nem ver quem era. Meu corpo reagiu mal novamente, eu fiquei sem ar, agoniada e com vontade de chora. Mais uma vez, eu me senti como lixo, suja e até um pouco culpada: “por que eu tive que sair de casa, também”?

Comparados com outros relatos, eram coisas menores, mas que por algum motivo me fizeram muito mal na época. E que anos depois  ainda me incomodavam, mas eu simplesmente não conseguia me lembrar deles, se não por acaso ou associação. Cheguei à constatação de que eu fugia desses problemas, mas também que eu criei uma naturalização em torno deles. Esses fatos se anexaram à minha biografia, e por algum motivo minha memória não os considerava dignos de nota.

Mas fazendo esse novo esforço para relembrá-los eu fiz uma outra constatação desagradável. Eu, como tantas outras, me culpava ou me responsabilizava por essas coisas. Ou eu me arrependia de ir àqueles locais, ou eu decidia “me proteger” (como fazia com minha mochila).  Eu, como tantas outras, me culpava pelo que faziam comigo. Mas eu não sou culpada, essas mulheres que passaram por coisas menores, semelhantes ou piores que eu não são culpadas. Não importa o que nossos cérebros ou as pessoas nos digam: nós não somos culpadas pelo que fazem conosco.

Tamires Arsênio
Me segue aí!

Tamires Arsênio

24 anos, mineira, jornalista por formação, escritora por amor e atualmente envolvida nuns 2930281 projetos (a maioria sobre protagonismo feminino). Feminista, bem bruxona mesmo. Corvinal até o tutano, mesmo que o Pottermore teime que não. Ainda esperando que o Doctor pare com a TARDIS à minha porta e me chame pra ser companion.
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