Quero abraçar Freddie Oversteegen e nunca mais largar

Quer saber porque eu amo a Freddie Oversteegen? Porque em sua juventude, ela foi integrante da resistência holandesa durante a Segunda Guerra Mundial.
A família de Freddie já escondia pessoas que sofriam perseguição em sua casa, antes da convocação.
Freddie, hoje com 90 anos, foi recrutada juntamente com a irmã, Truus (16 anos), por um homem (cujo nome eu não descobri) quando ela tinha 14 anos. Ele pediu a permissão da mãe delas, para que ambas, que não passavam a suspeita de serem rebeldes, pudessem agir contra os nazistas. 
O grupo do qual as irmãs faziam parte também tinha uma jovem chamada Hannie Schaft, a garota dos cabelos vermelhos, a mais famosa entre as três.
Hannie Schaft e Truus, irmã de Freedie, durante a resistência
                      Truus (à esquerda) e Hannie                               
Hannie morreu antes do fim da guerra, um documentário foi feito sobre ela e seu corpo foi enterrado novamente, com a presença da Rainha Wilhemina e do Príncipe Bernhard da Holanda. Há 15 cidades na Holanda com ruas que receberam seu nome. Já  Truus, após o fim da guerra, se tornou porta-voz dos serviços memoriais e artista plástica.
   
Você acha que ela participava da guerra como soldado? Carregando armas e lançando granadas? Não! O trabalho dela (assim como das outras jovens) era seduzir soldados e lideres nazistas. Ela os levava para a floresta, onde membros armados da resistência os matavam, tiravam as roupas e enterravam o corpo. Freddie garante que nunca participou dessa parte e que sempre preferiu assim.
Thijs Zeeman, cineasta holandês, fez um documentário chamado Duas Irmãs na Resistência para a TV, onde conta sobre Freddie e também sobre sua irmã.
Ela deu uma entrevista para a VICE Holanda contando um pouco sobre como foi sua participação na guerra: 

Qual foi o papel de vocês nessa missão?

Não atirei nele — um dos homens foi quem atirou. Eu tinha que ficar de olho na minha irmã e manter um posto de guarda na floresta, para ver se ninguém mais estava vindo. Truus tinha encontrado o homem num bar caro, o seduzido e o levado para dar um passeio na floresta. Ela disse “Você gostaria de dar uma volta?” E claro que ele quis. Aí eles encontraram alguém — o que era para ser visto como uma coincidência, mas ele era um dos nossos — e o amigo disse para a Truus: “Menina, você sabe que não deveria estar aqui”. Aí eles se desculparam, deram a volta e foram embora. Aí vieram os tiros, então aquele homem nunca soube o que o acertou. Eles já tinham cavado a cova, mas não tivemos permissão para ver essa parte.

E vocês não tiveram problema com isso?

Não, eu não queria ver mesmo. Mais tarde eles nos disseram que tiraram todas as roupas dele para que o corpo não pudesse ser identificado. Acho que ele ainda deve estar lá.

Vou deixar o link com a entrevista completa aqui. Freddie se mostra encantadora, uma mulher admirável que fez muito por seu país. A luta, a coragem e a resistência dela servem de inspiração para todas nós.

O ‘pequeno’ assédio nosso de cada dia

assédio

Na época da campanha #meuprimeiroassédio eu não conseguia me lembrar de nada que eu tivesse passado e que se encaixasse na proposta. Eu lia os relatos das outras mulheres e, além de triste por elas, ficava assombrada por perceber que tanta gente já tinha passado por acontecimentos marcantes e cruéis. Eu só conseguia me lembrar das pequenas cantadas de rua, que não, não são bobagens, mas com as quais (infelizmente) toda mulher aprendeu a conviver. Mas depois eu me lembrei que eu tinha, sim, acontecimentos (e até rotinas) que me marcaram de forma negativa, mas que por algum motivo eu havia suprimido.

Quando eu tinha uns treze anos, eu morria de medo de voltar sozinha da escola, porque uns meninos (sim, meninos, de uns 9 ou 10 anos) sempre passavam a mão na minha bunda e me chamavam de gostosa se eu topava com eles fazendo o caminho oposto, saindo da escola deles. Eu passei a usar minha mochila-carteiro virada para trás, evitava esse horário, e sempre andava junto com uma colega que morava no caminho de casa – e que também morria de medo e desconforto pela situação.

Aos quinze, em um aniversário, um rapaz me chamou para conversar e, do nada, no meio da conversa, tentou me beijar. Eu neguei, mas ele insistiu um pouco. Eu era muito retraída e me senti tão mal que saí de perto dele, corri para o banheiro e vomitei. E quanto mais o amigo dele insistia pra eu “deixar de bobeira” e explicar ao menos “por que não”, pior eu me sentia. Por meses eu ficava mal quando lembrava disso ou via esse menino na escola, e escondi o fato, cheia de vergonha.

Aos dezessete, numa festa, um cara tentou me agarrar por trás enquanto eu procurava o banheiro. Ele provavelmente estava bêbado, o que facilitou que eu me desvencilhasse sozinha, sem nem ver quem era. Meu corpo reagiu mal novamente, eu fiquei sem ar, agoniada e com vontade de chora. Mais uma vez, eu me senti como lixo, suja e até um pouco culpada: “por que eu tive que sair de casa, também”?

Comparados com outros relatos, eram coisas menores, mas que por algum motivo me fizeram muito mal na época. E que anos depois  ainda me incomodavam, mas eu simplesmente não conseguia me lembrar deles, se não por acaso ou associação. Cheguei à constatação de que eu fugia desses problemas, mas também que eu criei uma naturalização em torno deles. Esses fatos se anexaram à minha biografia, e por algum motivo minha memória não os considerava dignos de nota.

Mas fazendo esse novo esforço para relembrá-los eu fiz uma outra constatação desagradável. Eu, como tantas outras, me culpava ou me responsabilizava por essas coisas. Ou eu me arrependia de ir àqueles locais, ou eu decidia “me proteger” (como fazia com minha mochila).  Eu, como tantas outras, me culpava pelo que faziam comigo. Mas eu não sou culpada, essas mulheres que passaram por coisas menores, semelhantes ou piores que eu não são culpadas. Não importa o que nossos cérebros ou as pessoas nos digam: nós não somos culpadas pelo que fazem conosco.