Duas – por Mariana V. Lazzari

RENOIR – Duas meninas lendo no jardim



Eu era ainda menina na escola quando estabeleci minha amizade com ela. Era de uma quietude confortável porque não esperávamos nada uma da outra. Muitos se enganam desmerecendo as ambições infantis. Mesmo as que corriam à nossa volta queriam, das outras crianças, ganhar rir, mexer-lhes nos cabelos, rolar sobre a areia. E correr. Eu aceitava dela um pedaço do sanduíche. Ela, um gole do meu suco. E só.

Conversávamos bastante. No entanto, às vezes, como quem nada diz. “Tenho dentista hoje”, eu disse uma vez. “Morro de medo e você?” E eu orgulhosa “Nem um pouco.” e sorríamos sem nos espantar. Ela nunca era novidade: Linda era como uma extensão alourada e miúda de mim.
Não que não fôssemos crianças comuns, de modo que brincávamos, brigávamos – nunca entre nós -, fazíamos as lições, errávamos os exercícios e vibrávamos com os esportes no recreio. E corríamos. Nossa unidade serena era do tipo que algumas pessoas passam a vida sonhando em ter e parecem procurar em todo lugar, exceto numa escolinha provincial, no meio de duas menininhas, apagadas e inocentes.
Depois de um intervalo que passei sem ver Linda, ela entrou atrasada na sala, com o rosto vermelho e molhado de dar dó, alcançando um nível novo de pureza, agora frágil. Ela se sentava na minha frente e eu mal levantei os olhos à chegada polêmica. A professora, ocupada com o outro lado da classe, não notara nem tampouco a maioria dos alunos. A aula prosseguia normalmente.
Os colegas próximos a nós que, não por coincidência, eram-nos os mais afetuosos, miraram-na curiosos e lhe ofertaram uma tonelada de perguntas doces e docemente inquisitivas. Ela se mantinha calada, familiar ao silêncio como eu sabia que era. Muda sem desespero. Mas triste. Os olhinhos preocupados dos outros voltavam-se, então, a mim, indecisos e sem entender se as lágrimas separavam Linda de mim ou se ainda eu poderia lhes amansar a curiosidade. Eu acenava tranquilamente, com todos os meus sete anos, mesmo sem saber o que a fazia chorar com mais precisão do que os outros. Eu era como uma extensão morena e crescida dela.
De Linda de costas eu só via os fios louros e Linda não me via (Por quê chorava não caberá a este texto revelar. Caso encontrasse Linda hoje, ela talvez risse de tanta desimportância. Acho que tudo isso foi por demais irrelevante e decisivo, como são os acontecimentos dessa remota infância) e, embora não me visse, quando a toquei no ombro – nada perguntaria, só o toque já iria dizer – ela já olhava pra mim. Me flagrara o movimento ou antecipara-o? Os olhinhos úmidos agradeceram e, com os mistérios de si, questionaram-me graves: “Vai dar tudo certo?”, me flagrando e antecipando agora o consolo clichê.
E, bom, deu.”

Quem escreve

                   

20 anos, estudando história, a doida do violão e da piada do pavê. Acabei deixando a escrita de lado por falta de tempo e incentivo, mas com uma dorzinha no coração.

Comentários

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2 comments

  1. Elas por Elas

    A Mariana é muito talentosa, não é?

    Responder

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