Sobre lugar de fala, repercussões e trolls de internet

Troll: aqui não
No começo de tudo, eu tive a ideia do blog Elas por Elas – Projeto Literário. A intenção era criar uma plataforma de empoderamento feminino através da literatura. Pouco tempo depois, ele começou a abordar diversos conteúdos feministas, ganhou colunas e categorias.
E então eu resolvi criar conteúdo próprio para a página, para dar uma alavancada. E deu certo. Semana passada tínhamos pouco mais de 200 curtidas, e da última vez que olhei estávamos quase atingindo as 2 mil. Um único post, um fluxograma sobre lugar de fala, trouxe todas essas pessoas para cá. E isso eu agradeço, de coração.
Mas ele também trouxe problemas. Uma página opressora compartilhou nosso post, com um texto sobre “liberdade de expressão” defendendo o direito de todos falarem, mesmo que ofendam alguém. E, com isso, vários usuários dessa página inundaram minha postagem, às vezes com críticas, mas na maior parte do tempo com ofensas.
Antes de tudo, um esclarecimento: lugar de fala não é sobre silenciamento das maiorias, mas sobre garantir o espaço da minorias. É sobre respeitar seus pontos de vista sobre algo que eles mesmos vivem. E é sobre não engrossar o grupo dos que calaram e calam suas vozes por anos.
Também recebi comentários compreensíveis de pessoas que diziam que só se pode analisar o discurso do opressor se ele falar. Mas eu, particularmente, achei que estava claro que o fluxograma não era para quem pretende reforçar opressões (de que adiantaria?), mas para aqueles que querem contribuir com as lutas, mas acabam cometendo erros.
Eu também não acredito em uma plena liberdade de expressão, não na prática, uma vez que discursos levam a consequências. E nessas consequências, muitas vezes, se inclui o silenciamento de parcelas da população. Por isso, entre endossar a “liberdade de ofensa” e incentivar o respeito pela fala daqueles que foram historicamente calados, sempre optaremos pelo segundo.
Isso tudo além do fato de que desconstrução leva à mudança de pensamento, e não necessariamente você precisa agredir alguém verbalmente e expor seus preconceitos e paradigmas para repensá-los: muitas vezes, basta parar para ouvir o que o outro tem a dizer.
Dito isto, quero deixar transparente a política do blog e da página: debates são saudáveis e desejáveis, desde que um lado esteja disposto a ouvir de verdade o outro. Por isso não vamos aceitar comentários de usuários que reproduzam discurso de ódio, deboches ou qualquer crítica destrutiva. É ruim para a página, mas principalmente é ruim para nossa saúde mental. Trolls não serão bem-vindos. Se preciso, chamamos o Harry, o Ron e a Hermione pra ajudar a derrotá-los. E se eles não puderem vir, quem insistir em trollar se encaminhará para este endereço:

Seios – por Sara Tude

Reprodução/Pinterest

         

Redondos, ou não
Firmes, ou não
Proporcionais, ou não
Grandes, ou não
Pequenos, talvez
Ou nem tanto assim
Caídos, ou não
Iguais, ou não
Naturais, ou não
Com leite, ou não
Fabricados, talvez
Ou nem tanto assim
Sejam como forem, mulher
São teus
E são assim
Também formam a tua beleza
É teu corpo, mulher
Se ame assim
É teu o seio
É tua a madre
São tuas as curvas
É você
É teu o coração
Que o teu próprio seio esconde
Guarda
É a tua casa
E é linda assim.

Quem escreve 

                                                  
Me chamo Sara, tenho 19 anos, sou geminiana, artista, bailarina, poetiza, professora de dança contemporânea e apaixonada pela arte em todas as suas formas de expressão.

O casamento entre a hipocrisia e o preconceito

Ontem à tarde, ao entrar no ônibus, me deparei com uma conversa que estava acontecendo no banco de trás, que chamou muito minha atenção (não que eu fique prestando atenção em conversa de ônibus). O diálogo se passava entre um pai e sua filha: 
“_ Mas pai, não tem problema algum. Tem tanta gente por aí que tem tatuagem.
_ Você não é ‘tanta gente’! Não vai fazer tatuagem nenhuma.
_ Mas…
_ Gente tatuada tem problemas para arrumar  emprego, é chamado de maloqueiro, vagabundo ou bandido. A pessoa pinta o corpo, achando que é bonito, que é ter personalidade própria, ser diferente e mais um monte de outras coisas. Mas depois que amadurece vê que é a maior burrice. Que não trás nada de bom. Só atrapalha…”
A conversa continuou, mas eu havia chegado em meu ponto e tive de descer. Só que antes eu me virei para dar uma olhada nas pessoas que conversavam; uma menina de aparentes 14 anos e um pai com um dragão vermelho desenhado no braço esquerdo! o.O
Aquela imagem me fez rir, mas um riso de espanto. É incrível como a hipocrisia, a intolerância e o preconceito estão muito mais perto e presentes do que parece. Como alguém que se tatuou é capaz de dizer ao filho que isso é uma “burrice”? O homem praticamente disse que, quando crescemos, nos entregamos aos preconceitos da sociedade. Ele se assumiu um ser humano incapaz de se manter naquilo em que acredita, preferindo se curvar ao controle imposto pelos intolerantes.
E não é apenas com tatuagens, pensamentos como os dele estão ao montes por aí, acontece com muitas outras pessoas. Um padre que não respeita as crenças de um monge; um branco que se acha melhor que um negro; ou um negro que pensa ser mais que um branco; uma bailarina que critica um estilo de dança diferente do dela (e esses são exemplos até “pequenos”), enfim, um infinito número de hipócritas preconceituosos existentes ao nosso redor.
É incrível como podemos nos achar no direito de criticar alguém sem antes olhar para os próprios erros… Não, ‘erros’ não é a palavra, afinal de contas, ter uma visão diferente das coisas não é um erro. Criticamos sem considerar nossas próprias atitudes. Aquele homem do ônibus já agiu de uma forma que, hoje, condena de forma agressiva, contribuindo para a dissipação de discursos ofensivos contra quem é diferente, contra ele mesmo.
Inacreditável como é gigantesca a ‘habilidade’ que alguns homens possuem para ser hipócritas e cínicos. Não importa o que ele tenha feito ou venha a fazer, o problema se dá quando outros estão fazendo. Somos capazes de enxergar erros nas atitudes de quem está ao nosso redor. E, na maioria das vezes, temos uma atitude igual.
A verdade é que deveríamos abrir nossos olhos e mentes. É óbvio que não somos iguais, com diferentes ideias, gostos, atitudes, crenças, tipo físico. E, pelo que parece, uma outra coisa que é muito igual é a ignorância humana. Quanto tempo teremos de esperar para enxergarem que esse é o motivo das tristezas que assolam nosso mundinho?

A propósito, vou fazer ,minha primeira tatuagem! E meu pai pensa como o pai do ônibus.