Me mandaram calar a boca

Imagem: reprodução/internet

Quando eu era pequena, costumava ser faladeira. Vejo vídeos de quando eu tinha uns 5 anos e imagino o quanto devia ser irritante ver aquela miniatura de gente com aquela vozinha esganiçada tagarelando pela casa afora. Eu lembro que também chateava meus colegas de classe e professoras de tanto que eu falava. Eu prestava muita atenção na aula, mas eu gostava de falar. Então me mandaram calar a boca.

E eu me calei. Me calei por anos, ao ponto de, na adolescência, ouvir um “ó, ela fala” depois de algumas semanas numa escola nova. Desenvolvi uma timidez muito grande, medo de me expressar, medo de ser julgada. Também passei a falar baixo (coisa que faço até hoje), e mesmo no único lugar onde eu me sentia à vontade para me expressar (em cima de um palco), eu ouvia meus professores mandarem eu falar mais alto.
Mas dessa vez eu não falei mais alto. Continuo com a voz baixinha, continuo me sentindo à vontade para falar muito apenas entre conhecidos, continuo achando que os incomodo com minhas conversas chatas. Ainda tenho medo de falar algumas coisas que acabam ficando apenas no pensamento, mesmo estando numa roda de conversa. Meu coração ainda palpitava no último ano de faculdade, nas poucas vezes em que eu tinha coragem de levantar a mão em classe.
Não me mandaram calar a boca apenas uma vez, e nem só com palavras. Me mandaram calar a boca praticamente todas as vezes em que eu falava. Sim, recebi castigos mais severos que o aceitável por falar demais, mas ainda acho que esse foi o menor dos fatores. Me mandavam calar a boca quando debochavam do que eu falava, quando me ignoravam por gostar de coisas diferentes dos meus colegas, quando não respeitavam minhas opiniões. E eu, em fase de desenvolvimento, fui acreditando que eu merecia mesmo era calar a boca.
Mas um dia eu descobri que eu não precisava tanto assim da boca para me expressar. Conheci a escrita, e todas as possibilidades que ela me dá. Comecei na literatura amadora, então cursei Jornalismo, e descobri causas sociais. Virei feminista. Ainda escuto calada quando algumas pessoas destilam bobagens, mas não poupo mais palavras quando tenho a oportunidade real de escrever. E não, eu não vou mais me calar.
Tamires Arsênio
Me segue aí!

Tamires Arsênio

26 anos, mineira, jornalista por formação, escritora por amor e atualmente envolvida nuns 2930281 projetos (a maioria sobre protagonismo feminino). Feminista, bem bruxona mesmo. Corvinal até o tutano, mesmo que o Pottermore teime que não. Ainda esperando que o Doctor pare com a TARDIS à minha porta e me chame pra ser companion.
Tamires Arsênio
Me segue aí!

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Comentários

comentários

4 comments

  1. Anônimo

    Me fez chorar. Me vi nesse texto, não quero mais me calar também.

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  2. Anônimo

    ''Pessoas caladas possuem mentes turbulentas'' – Stephen Halwking

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  3. Tamires

    E às vezes essas turbulências são boas, outras vezes são devastadoras, né? :/

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