Sara – por Rebeca Almeida

 
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De certa forma, aquele vestido florido era perfeito para o dia. Sara soube disso assim que terminou de abotoar todos os botões, que iam desde a altura do peito até a barra da saia florida. Ela se encarou no espelho por alguns instantes, não precisou de mais que cinco minutos para se arrumar. Não era dada a muita vaidade, e por mais que ainda fosse jovem, costumava de vestir como uma senhora. Pegou um grande chapéu de palha e colocou na cabeça, escondendo os longos cachos dourados. Depois, pegou o pouco dinheiro trocado que tinha e colocou no bolso do vestido. 
Quando chegou na sala, Roberto já estava pronto também. Ele usava uma camisa social branca, cuja qual Sara teve grande dificuldade para deixar alva daquela maneira. 
– Bom dia, querido!
– Ela disse enquanto beijava sua bochecha e dava para ele seu melhor sorriso. Ele não retribuiu, ficou murmurando alguma coisa, ao mesmo tempo em que lia o jornal matinal. 
Ele já havia feito café e se servido, então ela pegou apenas um caneca no armário. Sentou-se na mesa e começou a passar mateiga em um pedaço de pão. Ricardo não tirou a cara de trás do jornal. Sara teve que se contentar com o rosto de algum político corrupto estampado no papel.
– Você dormiu bem? – Ela perguntou com a boca cheia de pão.
– Pare de falar com a boca cheia. E anda logo, temos que sair daqui a pouco.
Enquanto terminava de comer, também deu uma olhada no periódico, no caderno de entretenimento e depois nas manchetes de um modo geral. Não teve muito tempo de ler com calma porque assim que Roberto terminou de comer ficou apressando a esposa para que saíssem logo.
– Já são 8hs, já devem estar nos esperando. Vamos.
– Calma – Ela respondeu com um sorriso. Estava muito feliz para se preocupar junto com o outro.
– Eles marcaram oito e meia, já são oito e nós ainda nem saímos de casa! – Ele estava começando a ficar mais chateado que o normal.
– Tudo bem, deixa só eu deixar a caneca na pia. Ela foi até o local, deixou o objeto lá e depois colocou a mão no bolso. Roberto já estava na frente do carro nesse meio tempo.
Finalmente entraram no fusca vermelho bordô e ele seguiu dirigindo até a rua principal.
Depois seguiu rumo à autoestrada. Estavam ambos calados desde que saíram de casa. Ele olhava fixamente para frente enquanto ela estava perdida em reflexões. Algum tempo passou até que Sara cortou o silêncio:
– Querido, por favor, pode parar aqui?
– Pra quê?! – Ele perguntou, já nervoso. Roberto tinha o defeito de perder a paciência com qualquer coisa que Sara pedia. Sara por sua vez, passou tempo demais tentando ter paciência com esse defeito dele.
– Por favor, é rápido. – Ela tentou bajular.
– Não! Aguenta até lá, a gente já está atrasado.
– Roberto, pára o carro ou eu estouro seus miolos. – Ela falou subitamente, com um pequeno revólver encostada na têmpora do homem.
Roberto tomou um susto, esboçou um sorriso e perguntou se Sara tinha enlouquecido.
– Pra falar a verdade, eu nunca estive tão sã em toda a minha vida. – Ela respondeu com seu melhor semblante. 
Depois, atirou. Um único disparo fez com que os miolos se espalhassem e sujassem parte do carro. O veículo derrapou até o acostamento. Sara que estava segurando a arma com luvas, com cuidado colocou o objeto nas mãos do cadáver e saiu. Andou por algum tempo, cerca de dois quilômetros. Depois pediu carona e conseguiu de um caminhoneiro. Ele ia até a cidade vizinha, disse. Ela sorriu, respondendo que era exatamente para onde queria ir. Na chegada deu algum dinheiro para o homem. Depois foi até a rodoviária pegar um ônibus para outro estado.

Quem escreve

                       
Rebeca Almeida é baiana, estudante jornalismo, escritora e desenhista. De modo geral gosta de coisas “nerds” mas odeia ser enquadrada nesse rótulo. Na verdade não gosta de rótulos de forma alguma