Amar-se – por Luara Alves de Abreu

Reprodução/Internet

Ela tinha fome de amor. Ele tinha fome de atenção. Podiam combinar sim, tinham lá suas compatibilidades, vez ou outra assistiam aos mesmos filmes sem nem planejar e tinham os mesmos comentários sobre os conhecidos em comum. Mas quando as fomes são diferentes, o lugar onde se buscam apetites são outros, outras formas, outros corpos, outras bocas.

Ela tinha Vênus em leão, se entregava sem pensar duas vezes e sabia cativar, mal sabia o quanto abusavam da sua boa vontade. Ele nem ao menos o significado de cativar sabia. O significado de receber ele sabia sim e muito bem. Recebia tanto que mal dava conta de segurar. Era como minha vó dizia, para ele era “só venha a nós e ao vosso reino nada!”

Era um casal estranho e um tanto quanto infeliz. Um dia ela percebeu isso e disse que faria as malas, que iria embora sem data para voltar. Ele fez jogo baixo, chantagem emocional, disse que ela estaria desistindo de tudo. Ela sequer ouviu, fechou o zíper e pegou o próximo avião disponível para a viagem que há anos guardava dinheiro.
Até hoje ele a espera voltar para ignorá-la fingindo não se importar, mas ainda assim esboçar um risinho no canto de boca como quem pensa “ela ainda pensa em mim”. Não assume, claro. Até porque arrumou outra pessoa, outro emprego, faz suas coisas, segue sua vida, cria outras ilusões. Mas nunca, nunca mais viu um sorriso com lábios rosados e carnudos iguais aos dela. Nunca mais ninguém o fez dormir com canções românticas. Nunca ele conseguir matar por completo a sua fome de atenção.

E ela? Ela se deu conta que não tava desistindo de tudo não, pelo contrário, estava insistindo nela mesma. Matou finalmente sua fome de amor. Se deliciou ao descobrir seus prazeres. E não há amor mais real e sincero que esse, o amor próprio!

Quem escreve

Luara é geminiana com ascendente em câncer. Intensa por natureza, socióloga por profissão, atriz por paixão, bailarina por amor e feminista por dever!