Sobre leitura (?)

Ana e João eram vizinhos e amigos. João era popular, e todos o achavam o máximo porque ele lia muito. Toda semana estava com um livro diferente e os amigos adoravam ouvir sobre aquilo. Às vezes ele até gostava de se gabar um pouco quando lia algo muito bom ou conseguia um livro difícil na biblioteca.

Já Ana não tinha uma fama tão boa assim, porque… também lia. Lia muitos livros, sim, mas nem de longe tantos quanto João. Ainda assim, era para ela que as pessoas olhavam torto. “Nossa, já é o segundo livro que ela lê este mês…” “Essa tem mais carimbo da biblioteca que fios de cabelo, haha”.

João não gostava disso, porque via que Ana se sentia mal. Ele até a defendia às vezes, e cortava se algum amigo que já tivesse emprestado um livro pra ela viesse com gracinha. Mas, também, se ela não gostava que falassem, por que tinha que ler tanto?
Mas, como qualquer pessoa, Ana gostava de ler! As pessoas eram rudes, sim, mas ela não achava certo parar de fazer algo que lhe fazia bem só para pararem de falar mal dela. Além do mais, ela sabia que ler faz bem, além de liberar endorfina, o que justifica o fato dela gostar tanto.
Ela e João às vezes conversavam sobre os livros que liam. Ele só não gostava de ouvir muitos detalhes sobre os dela. Número de páginas, nem pensar! Mas ele adorava narrar detalhes tanto das histórias quanto sobre a hora, o local e as circunstâncias em que as leu.
João já tinha ganhado alguns livros de presente. Na verdade, algumas meninas até gostavam quando ele aceitava ou pedia os dela, porque o achavam culto. Mas ele não resistia e acabava lendo outros ao mesmo tempo. E sempre era ele que devolvia os presentes para as donas originais.
Já Ana tinha ganhado um único livro, uma vez. Ela gostava muito dele e o lia exclusivamente, cheia de cuidados e carinho. Chegou até a tirar algumas fotos enquanto lia, no meio de uma leitura muito empolgada. Mas um dia a pessoa que lhe dera o livro o tomou de volta, deixando-a arrasada.
Sua vida desmoronou de vez quando ela descobriu que ele espalhou para todo mundo que ela tinha deixado seu livro com orelhas e marcas de dedos. Quando ela foi tirar satisfação, ele postou as fotos que, sem ela saber, ele ainda guardava.
Se antes ela estava com fama de destruidora de livros, agora as pessoas se achavam no direito de empurrar para ela todo tipo de leitura horrível. “Afinal de contas, eu já te vi lendo, mesmo”. “Eu sei que você lê qualquer coisa. Toma, lê o meu, vai? Só não encha de orelhas! Haha!”
Sua vida virou um inferno. E João? João não falava mais com ela tanto assim. Que garoto iria querer ser amigo de uma garota que se deixa fotografar lendo, não é mesmo? E ele seguia lá, lendo todos os livros que podia. E até pedia – e recebia – fotos de algumas meninas pra quem ele também emprestava livros.
No fundo, ele sempre quis emprestar um livro para Ana. Na verdade, era para ela que ele queria dar um livro e nunca mais pegar de volta. Mas ele não podia fazer isso, podia? Ele não seria tolo para “fazer o favor” de tentar limpar em vão a imagem de uma menina que lia tantos livros. E ela também tinha tanta bagagem… O livro dele teria que ser muito bom.
Ana precisou mudar de cidade e rezar para que algum outro escândalo literário abafasse o seu. Mas ela sabia que todo mundo já tinha visto as fotos, e que ela teria que suportar. Lamentava mais ainda ter de fazê-lo sozinha, sem o apoio de seus pais, que a olhavam sempre decepcionados, ou de seus amigos, ou de João. Teria que aguentar sozinha. Só não sabia se conseguiria…
Tamires Arsênio
Me segue aí!

Tamires Arsênio

26 anos, mineira, jornalista por formação, escritora por amor e atualmente envolvida nuns 2930281 projetos (a maioria sobre protagonismo feminino). Feminista, bem bruxona mesmo. Corvinal até o tutano, mesmo que o Pottermore teime que não. Ainda esperando que o Doctor pare com a TARDIS à minha porta e me chame pra ser companion.
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Comentários

comentários

6 comments

  1. Lívia Santana

    Nunca vivenciei situação semelhante. Na verdade sempre fui elogiada por ler bastante e conheço pouquíssimos meninos que gostam de ler. Então eu meio que cresci achando que ler era "coisa de mulher". Mas acho que você quis passar uma duplicidade de sentido, não é mesmo? A leitura como uma metáfora para "coisas de meninos" e "coisas de meninas", e como as mulheres sofrem mais opressão por fazer a mesma coisa que os homens. Gostei do seu texto e da forma como escreve. Parabéns!

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  2. Thainá Santos

    Cara, que texto incrível, comecei a ler achando que era uma coisa e amei a mensagem que você passou. Não posso negar: achei um pouco engraçado também kkkkkk Tem coisas que só nós mulheres sabemos, tem coisa que em pleno séc. XXI ainda usam contra a mulher (mesmo coisas naturais)… enfim… a gente só não pode desistir de tentar mudar esse quadro. Beijão!!

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  3. Tamires

    O mais mágico da literatura e das metáforas é a diversidade de interpretações, né? rs Eu escrevi esse texto pensando numa situação específica, e você enxergou algo mais geral. Fico muito feliz quando isso acontece! haha Agradecida por ter gostado! 🙂

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  4. Tamires

    Às vezes a gente tem que rir (e fazer graça) pra não chorar, né? hahaha Ser mulher não é nada fácil. Obrigada pela leitura!

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  5. Bruna Della

    Moça, me abraça!!
    Não tinha entendido o (?) do titulo e sério: esse texto pode ser interpretado de tantas maneiras que eu quero apenas te abraçar!!!!!

    Abraços de luz

    Responder

  6. Bruna Della

    Moça, me abraça!!
    Não tinha entendido o (?) do titulo e sério: esse texto pode ser interpretado de tantas maneiras que eu quero apenas te abraçar!!!!!

    Abraços de luz

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