sonhos

Matéria de Sonhos

Peguei matéria de sonhos, esfarelei-a e, depois de uma fina camada de cola, joguei o pó sobre uma folha de papel. Era lindo. Furta-cor, brilhava e brilhava. Difícil de explicar. Imagine sonhos sobre uma folha de papel. Não dá para descrever, não é? Pois então. Apenas imagine, já basta. Isso porque a matéria de sonhos não é sempre igual. Se você imaginar, assim ela é. A minha, eu imaginava -e via- das cores mais lindas. Você pode imaginá-la verde esmeralda, ou negra com um fugaz brilho púrpura. Ou cinzenta e sem graça. Isso vem de dentro da gente, que não consegue imaginar de outro jeito, porque a matéria de sonhos reflete o que somos. E a matéria de sonhos sobre uma folha de papel é da cor que a gente imagina.

Então… Era lindo, assim que eu a via. Peguei a folha de papel de sonhos, e pendurei no varal para secar. O sol a fazia brilhar ainda mais. Vi os passarinhos se revirando no ninho no alto da mangueira do quintal, quando os reflexos iam bater em seus olhos. Mas logo eles olhavam direto em sua direção, e se encantavam pelas suas luzes. Eu brincava com eles, soprando com força a folha para lá e para cá, aproveitando para acelerar o trabalho que o sol fazia. E quando me cansei fiquei lá, só observando aquele brilho.

Quando a folha secou por completo, saí correndo com ela em mãos, com a segurança de meu pó de sonhos estar bem fixado ao papel pela cola. E a folha voava e voava, espalhando sua luz por todo o quintal, e então por toda a minha casa. Corri para mostrar à minha mãe, que sorriu, com os olhos molhados não sei por que. Depois fui mostrar para meu irmão mais velho, que sorriu também. E achei meu pai por último, que estava com os mesmos olhos tristes de minha mãe, segurando uns papéis que eu não sei de que são. E ele também sorriu. Largou os papeis e foi até minha mãe, que ainda sorria, iluminada pelos meus – ou seria pelos seus?- sonhos.

Não tinha mais a quem mostrar minha folha… Não me deixavam sair de casa sozinha, e meus pais e meu irmão estavam muito ocupados sorrindo. Então fui à cozinha e colei a folha na porta da geladeira. Não ficou bonito. Tirei. Eu queria alguma coisa mais… Então, a ideia. Os sorrisos da minha família estavam mais fracos e menos brilhantes. Corri até o meu quarto e peguei meu estojo escolar de novo. Peguei minha tesoura nova e cortei a folha em alguns pedacinhos.

Guardei um pedaço maior, para quando precisasse, dentro de um bauzinho que minha mãe tinha me dado e que eu nunca tinha usado, esperando ter uma coisa valiosa para guardar ali, a chave. Preguei um pedaço na cabeceira da minha cama, para garantir sonhos bons à noite, e de modo que para sonhar acordado era só olhar para ele de manhã. Os outros pedaços entreguei um para meu pai, um para minha mãe, e outro para meu irmão. Cada um pregou no seu próprio quarto, sempre sorrindo. O último pedacinho peguei e esfarelei de novo. Fui até a janela aberta e soprei o farelo ao vento. Deixei eles voarem livres, para chegarem a quem quiser recebê-los. Um pode ir até você. Basta querer. E saber ver as cores e a beleza da matéria de sonhos.

Tamires Arsênio
Me segue aí!

Tamires Arsênio

24 anos, mineira, jornalista por formação, escritora por amor e atualmente envolvida nuns 2930281 projetos (a maioria sobre protagonismo feminino). Feminista, bem bruxona mesmo. Corvinal até o tutano, mesmo que o Pottermore teime que não. Ainda esperando que o Doctor pare com a TARDIS à minha porta e me chame pra ser companion.
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Comentários

comentários

3 comments

  1. Ana Gonzaga

    Ahhhh que lindo!!!!
    Imaginar os sonhos em cima do papel é apaziguador… ❤

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  2. Ana Gonzaga

    Ahhhh que lindo!!!!
    Imaginar os sonhos em cima do papel é apaziguador… ❤

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  3. Tamires

    Confesso que foi um dos textos que eu mais gostei de escrever. <3 Obrigada pela leitura!

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