Imergir

Imergir

Verão. O céu mais azul que alguém poderia ver na vida e um sol desejado por 11 entre 10 turistas no litoral. Ironicamente, é logo aqui, no interior. Daqueles dias em que o calor passa do aconchegante, surtindo mais um efeito de vivacidade e animação nos corpos e levando à redução das roupas ao mínimo necessário. Justamente por isso, é essa a época que eu aprendi a odiar com todas as minhas forças. Sim, também odeio o calor e todo o suor que ele propicia, mas comecei a odiar ainda mais as opções que temos para dribla-lo.

À minha volta todos estão felizes e, por que não dizer, radiantes. Não existe outra palavra para definir os efeitos do sol de dezembro sobre banhistas em um sítio. Os corpos em sungas, biquínis e maiôs são razoavelmente variados, exceto por um detalhe: o único gordo é o daquela que os observa, vulgo, eu. Até agora eu me questiono o que estou fazendo aqui, se não me encaixo. Às vezes ainda me questiono como pude acreditar, por um único segundo, que não teria problema em usar um traje de banho de duas peças. E, sim, esse questionamento não me deixa tirar a canga, muito menos pular na piscina.

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sonhos

Matéria de Sonhos

Peguei matéria de sonhos, esfarelei-a e, depois de uma fina camada de cola, joguei o pó sobre uma folha de papel. Era lindo. Furta-cor, brilhava e brilhava. Difícil de explicar. Imagine sonhos sobre uma folha de papel. Não dá para descrever, não é? Pois então. Apenas imagine, já basta. Isso porque a matéria de sonhos não é sempre igual. Se você imaginar, assim ela é. A minha, eu imaginava -e via- das cores mais lindas. Você pode imaginá-la verde esmeralda, ou negra com um fugaz brilho púrpura. Ou cinzenta e sem graça. Isso vem de dentro da gente, que não consegue imaginar de outro jeito, porque a matéria de sonhos reflete o que somos. E a matéria de sonhos sobre uma folha de papel é da cor que a gente imagina.

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Carta a mim mesma, quatro anos atrás

Você ainda não me conhece. Essa versão de você, a quem esta carta se dirige, ainda não tem a menor ideia do que é ser quem eu sou. As únicas verdades que você conhece são as que já vivenciou, por isso eu compreendo se você não conseguir aceitar minha carta ainda. Mas eu preciso te avisar: um dia, em outra fase da sua vida, haverá uma outra “você” que compreenderá cada palavra que eu escrevo aqui. No momento, o que quero não é que concorde comigo, nem que sinta empatia por mim. Só o que eu quero é que você saiba que eu te entendo.
 
Entendo quando você se olha no espelho e se acha desinteressante. Não, você não é. Mas eu sei que você aprendeu a acreditar que essa é a verdade. Te ensinaram isso. E certas coisas, por termos aprendido de uma forma tão aguda, para nós parecem naturais e corretas. Mesmo que elas não sejam, de forma alguma.
 
Também entendo a forma como você vê o mundo e as pessoas. Sua dificuldade de identificação com algumas coisas e os ideais que você formou ao redor disso. Sei que ainda é difícil para você abraçar as irmãs que agem e pensam de um jeito diferente do seu. Você ainda não vivenciou a sororidade*, por isso eu sei que você pode não ser ainda capaz de empregá-la.
 
E, acima de tudo, entendo que você não me entenda. Porque eu sei que não foi por mágica que você chegou ao ponto em que está agora, então também não será assim que sairá dele. Tudo ao seu redor construiu sua mente agora, assim como construiu a mente de muitas das nossas irmãs. Eu as entendo.
 
E justamente por entender tudo isso eu estou aqui, te dando hoje o abraço que ninguém te deu ainda. Não, não é um abraço de autocompaixão, mas de pura e sincera compreensão. Pode parecer inútil fazê-lo agora que você não existe mais (a não ser na memória do que eu fui um dia). Mas, simbolicamente, eu quero que esse abraço se estenda além de você.
 
Quero que ele chegue a cada uma das meninas que ainda são como eu era quatro anos atrás. Meninas que ainda não receberam esse apoio de uma irmã. E que elas saibam que eu as entendo. E quero que, um dia, elas também possam escrever esta mesma carta a uma versão passada de si mesmas. Porque seguir em frente é aceitar o que já fomos.
Assinado: Você, sabe.
 

*Sororidade: sentimento de amor e união entre mulheres, formando uma grande irmandade feminina.