Corpo em cena

Sinto meu corpo preso na maré de sentimentos.
O equilíbrio que busco a longo prazo me puxa para o fundo do mar.
A âncora é pesada, repleta de durezas e cobranças.

Autopunição
Desrespeito
Intolerância
Se eu deixar, afundo.
Eu já quis.

Não vou mentir, o desespero bate.
A ansiedade e autocobrança em fazer dar certo me imundam.
Eu quero prosperar e alcançar o que acredito,
mas as ondas me puxam com tanta força que eu ainda não consigo domá-las.

Doi.

Sinto meu corpo encharcado não dos respingos da água.
É tudo lágrima.
Vocês me exigem o equilíbrio e a liderança de um ninho fraco.
Eu não sou matriarca.
Sou prole aprendendo a voar.

Para onde carregamos nossos braços quando livres?
Para onde nos levam nossas pernas?
Ainda não sou a leveza do corpo.
Não consigo voar pelo oceano, não consigo boiar sobre as ondas.

 

Foto: Ana Luiza Calmon

 

Pescoço, quando duro, trava o corpo.
Joelho falha quando falta equilíbrio.
Cabeça lateja sempre que falta oxigênio.
E os dentes gritam por voz quando falta expressão.

Meu cabelo quebrou quando faltou amor. Próprio.
Violei meu corpo de todas as formas para fazer tudo certo, para vocês.
Não quero ser boneca de pano vivendo remendada.

Sou inteira, sem retalhos.
Tentam apagar essa luz que vive acesa dia e noite, ensolarado ou nublado.
A luz pode até diminuir sua intensidade de vez e quando, mas ela sempre volta radiante.
É como um farol. O maior guia para um inteiro oceano.

Meu corpo segue preso na maré.
Não afunda, mas também não volta para a terra firme.
Não sou de falsas estabilidades. Tudo pertence ao mar, tudo navega com ou sem ondas.
Meu corpo pode travar e recuar, mas ele sempre avança.

A maré de sentimentos vai e volta, fica cheia e rasa.
Mas eu permaneço aqui.
Viva, forte e iluminada.
Meu corpo segue em cena.

 

Foto: Ana Luiza Calmon
Série One Day at a Time

Dica de série imperdível: One Day at a Time

Quando o assunto é engajamento social e político, a maioria das produções audiovisuais opta por uma ou duas pautas a serem abordadas, muitas vezes para evitar o risco (real) de se criar algo forçado ou raso. São poucas as obras que conseguem trazer múltiplos assuntos relevantes de forma orgânica e bem trabalhada. One Day at a Time (Netflix, 2017) é uma delas.

A série é um reboot da sitcom de mesmo nome exibida entre 1975 e 1984, que relatava o dia-a-dia de uma mãe solteira (vivida por Bonnie Franklin) criando suas duas filhas (Mackenzie Phillips e Valerie Bertinelli) em Indianápolis. A nova versão transformou a família em cubano-americana, com Justina Machado (Six Feet Under) como Penelope, a mãe, Isabella Gomez e Todd Grinnell como os filhos e Rita Moreno (a Anita de West Side Story e ganhadora dos EGOT) como a “abuelita” Lydia.

Série One Day at a Time
Os elencos da série original e do reboot, respectivamente

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Carta para uma versão mais evoluída de mim mesma

 

 

 

Poderia começar dizendo “Olá!”, mas ambas sabemos que eu não falo “olá”. Eu mal falo “oi”, apesar de não saber para qual lado pode ocorrer essa evolução, né. Hoje, nesse momento, as coisas estão em processo, como sempre. Talvez essa seja a hora que eu, ou você, consiga ver que eu posso fazer melhor do que isso, em alguns aspectos, e começar a arrumar a casa daqui.

(Será que daqui 5 anos vou estar morando em um apartamento? Espero que não, mas, se tiver, nada contra.)

Hoje as coisas não estão tão ruins, apesar de ainda ficar meio perdida por alguns momentos, sabe. Eu já consegui listar as coisas que me trazem mal estar – todo tipo de mal estar – e tenho desenrolado um por um, aos poucos, sem pressa, já que a noite é uma criança e, em milhões de aspectos, eu também. Tanto que, mesmo odiando recomeçar, tenho usado o otimismo para assumir que é preciso recomeçar quando se encontra algumas falhas. E pretendo não usar tanto os verbos “odiar/detestar”, porque né, convenhamos, que coisa boa isso pode trazer?

Consegui chegar no consenso de que não vale perder o meu – nosso – tempo falando sobre coisas que não gostamos, e isso inclui tanto vida de vizinhos quanto mal daquela banda ruim. Sabe aquela coisa de que, no fim das contas, não faz diferença? Porque não faz. Eu perder meu tempo para falar mal de alguém ou de alguma coisa não me faz ter mais tempo, não me faz ter mais dinheiro, não me faz ser um ser humano melhor, e é isso que eu tenho buscado nos últimos meses.

Ser um ser humano melhor.

Ser um ser humano que as pessoas possam contar, caso queiram, e que fique em paz com as escolhas que faz, porque hoje, especificamente, as coisas ainda não funcionam assim.

Só quero que você saiba que hoje eu estou tentando. Em vários sentidos, para vários lados. Quero que você saiba que hoje a vida anda meio bagunçada, e eu sei que você vai lembrar disso quando ler. Sei que você vai lembrar das dúvidas que rodeiam a minha cabeça, dos fantasmas que eu ando encarando no espelho, da falta de apoio que, nesse momento, é latente.

Mas eu não vou parar.

Apesar dos pesares, do medo, da vontade de fugir, eu não vou parar.

Nós merecemos coisas muito maiores do que eu tenho nesse exato momento, e eu sei que você vai ficar grata à essa adulta sem muita experiência por continuar tentando.

E, por favor, não alugue um apartamento. Se você estiver morando em um apartamento, receio não poder ter um gato, e eu quero muito ter um gato.

A gente se vê daqui uns anos.

Megan.

Contos Aleatórios sobre elas – Adessa

Adessa

 

Primeira Parte

A dúvida toma conta de cada passo que dou. Talvez eu devesse ter dado ouvidos a Tia Marli, ela estava certa, vir aqui foi um erro.

_ Boa noite senhorita, posso apanhar o seu casaco?

_ Ah sim, obrigada.

_ Adessa, você veio!

Tudo o que eu queria era chegar e ficar escondida em um canto, mas com essa sorte que tenho, claro que a escandalosa da Lola seria a primeira a me notar.

_ Olá Lola. Como você está?

_ Estou ótima! Melhor agora por saber que você e a Laura conseguiram se entender.

Falsa.

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Corpo infinito

Meu bem, quero te mostrar uma coisa:

Meu corpo.

Vem que eu te deixo tocar cada dobra, passar seus dedos em cada curva, volume, cada linha que me desenha. Eu te quero é me desenhando com suas mãos, sentindo minha pele arrepiar com seu toque. Te deixo apertar minha bunda com toda força, mas tem que mostrar que gosta, que minha bunda é gostosa desse jeito mesmo. Te deixo morder minhas coxas grossas e depois ir subindo aos poucos, me deixando tensa de tesão, dentro de mim. Eu tenho lábios lindos – em cima e embaixo, externo e interno. São carnudos, macios e ultra sensíveis. Se você quiser, te deixo fazer um estrago com eles, você vai ficar louco. Nego, quero sentir seu corpo quente ao meu, pele com pele, mão com mão, peito com peito, órgão com órgão. Entra e sai, entra e fica, sai e volta. Fundo. Profundo.

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Algo sobre Carolina Maria de Jesus

 

Há dias que fiquei ruminando pensamentos sobre como poderia expressar em palavras o que a escrita de Carolina me fez sentir, falar sobre os efeitos dos ecos que cada palavra escrita por ela reverberou em meu ser.

Poderia aqui falar a partir de uma perspectiva social baseando-me nas denúncias feitas por Carolina à uma realidade que ainda se faz presente- a realidade cruel vivida pelo povo negro, pobre, a realidade do quadro político do Brasil- o mesmo desavergonhado e perverso de hoje ou me ater à perspectiva feminista- sim, Carolina era feminista, um feminismo não acadêmico ou teorizado, mas fruto de uma experiência de vida, um feminismo de uma mulher que também foi “macho”, um feminismo honesto de uma mulher que ousava, sempre que possível, driblar o próprio machismo e fugir da linha reta e inflexível traçada pelo patriarcado.

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O vulcão que me habita

 

Às vezes estonteante, lidando com o oco calado da paz de espirito e da alegria, outras a flor da pele, na angustia do simples fato de ser eu.

Vivendo a beira de erupções onde pequenas frases me fazem jorrar sangue. As vezes frases nunca ditas, mas vividas mentalmente implantadas por monstros que se alimentam do amargor das ruínas. Na boca o gosto amargo da solidão, a certeza da desistência do mundo em relação a mim.

A ansiedade de que a minha luta pela pacificidade interior pode estar sendo em vão domina meu ser, sinto como se minha guerra pessoal já tenha sido perdida a muito tempo. Me dispo de mim na esperança de esquecer o que realmente se foi.

Flocos de esperanças ainda fazem alguma morada dentro de mim, mas as memórias do que perdi fazem com que eu não saiba mais como lidar com meu eu sem trovoadas. Temo não conseguir reconquistar, temo não conseguir disposições para que o meu universo pessoal me reconheça na face da verdade.

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Você partiu, mas tá tudo bem

Você partiu,

Mas por mim tudo bem… Estava na hora de esvair minha mente com algo novo que eu adoraria te contar ou com alguns daqueles planos do passado que eu compartilhei contigo.
Você partiu,
Mas por mim tudo bem… Comecei a fumar o dobro de cigarros que antes, o que vem me causado uma náusea imensa todas as noites, me despertando o desejo de tentar parar mais uma vez com o vício.
Você partiu,
Mas por mim tudo bem… Minhas lágrimas noturnas me renderam excelentes rimas non sense sobre amor e travesseiro.
Você partiu,
Mas por mim tudo bem… Agora aprendi a sentir um samba triste ao invés de só escutá-lo.
Você partiu,
Mas por mim tudo bem… Em meio a minha solidão e resistência de recomeçar eu aprendi coisas incríveis como sentir saudades de quem está vivo.

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