Contos Aleatórios sobre elas – Adessa

Adessa

 

Primeira Parte

A dúvida toma conta de cada passo que dou. Talvez eu devesse ter dado ouvidos a Tia Marli, ela estava certa, vir aqui foi um erro.

_ Boa noite senhorita, posso apanhar o seu casaco?

_ Ah sim, obrigada.

_ Adessa, você veio!

Tudo o que eu queria era chegar e ficar escondida em um canto, mas com essa sorte que tenho, claro que a escandalosa da Lola seria a primeira a me notar.

_ Olá Lola. Como você está?

_ Estou ótima! Melhor agora por saber que você e a Laura conseguiram se entender.

Falsa.

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Corpo infinito

Meu bem, quero te mostrar uma coisa:

Meu corpo.

Vem que eu te deixo tocar cada dobra, passar seus dedos em cada curva, volume, cada linha que me desenha. Eu te quero é me desenhando com suas mãos, sentindo minha pele arrepiar com seu toque. Te deixo apertar minha bunda com toda força, mas tem que mostrar que gosta, que minha bunda é gostosa desse jeito mesmo. Te deixo morder minhas coxas grossas e depois ir subindo aos poucos, me deixando tensa de tesão, dentro de mim. Eu tenho lábios lindos – em cima e embaixo, externo e interno. São carnudos, macios e ultra sensíveis. Se você quiser, te deixo fazer um estrago com eles, você vai ficar louco. Nego, quero sentir seu corpo quente ao meu, pele com pele, mão com mão, peito com peito, órgão com órgão. Entra e sai, entra e fica, sai e volta. Fundo. Profundo.

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Algo sobre Carolina Maria de Jesus

 

Há dias que fiquei ruminando pensamentos sobre como poderia expressar em palavras o que a escrita de Carolina me fez sentir, falar sobre os efeitos dos ecos que cada palavra escrita por ela reverberou em meu ser.

Poderia aqui falar a partir de uma perspectiva social baseando-me nas denúncias feitas por Carolina à uma realidade que ainda se faz presente- a realidade cruel vivida pelo povo negro, pobre, a realidade do quadro político do Brasil- o mesmo desavergonhado e perverso de hoje ou me ater à perspectiva feminista- sim, Carolina era feminista, um feminismo não acadêmico ou teorizado, mas fruto de uma experiência de vida, um feminismo de uma mulher que também foi “macho”, um feminismo honesto de uma mulher que ousava, sempre que possível, driblar o próprio machismo e fugir da linha reta e inflexível traçada pelo patriarcado.

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O vulcão que me habita

 

Às vezes estonteante, lidando com o oco calado da paz de espirito e da alegria, outras a flor da pele, na angustia do simples fato de ser eu.

Vivendo a beira de erupções onde pequenas frases me fazem jorrar sangue. As vezes frases nunca ditas, mas vividas mentalmente implantadas por monstros que se alimentam do amargor das ruínas. Na boca o gosto amargo da solidão, a certeza da desistência do mundo em relação a mim.

A ansiedade de que a minha luta pela pacificidade interior pode estar sendo em vão domina meu ser, sinto como se minha guerra pessoal já tenha sido perdida a muito tempo. Me dispo de mim na esperança de esquecer o que realmente se foi.

Flocos de esperanças ainda fazem alguma morada dentro de mim, mas as memórias do que perdi fazem com que eu não saiba mais como lidar com meu eu sem trovoadas. Temo não conseguir reconquistar, temo não conseguir disposições para que o meu universo pessoal me reconheça na face da verdade.

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Você partiu, mas tá tudo bem

Você partiu,

Mas por mim tudo bem… Estava na hora de esvair minha mente com algo novo que eu adoraria te contar ou com alguns daqueles planos do passado que eu compartilhei contigo.
Você partiu,
Mas por mim tudo bem… Comecei a fumar o dobro de cigarros que antes, o que vem me causado uma náusea imensa todas as noites, me despertando o desejo de tentar parar mais uma vez com o vício.
Você partiu,
Mas por mim tudo bem… Minhas lágrimas noturnas me renderam excelentes rimas non sense sobre amor e travesseiro.
Você partiu,
Mas por mim tudo bem… Agora aprendi a sentir um samba triste ao invés de só escutá-lo.
Você partiu,
Mas por mim tudo bem… Em meio a minha solidão e resistência de recomeçar eu aprendi coisas incríveis como sentir saudades de quem está vivo.

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Amizades instantâneas não me nutrem

Uns minutos de total descontrole e caí, sabe-se lá como, em um mar de dúvidas e opiniões sobre a onda de pessoas que passam pela nossa vida e, principalmente, o tanto que eu acreditei que durariam para sempre.

(Um asterisco fofo: eu sempre acreditei que todos nós temos, ou teremos, uma pessoa para a vida toda.)

Tudo bem se eu me tornar uma pessoa ingênua à partir de agora, mas eu simplesmente não consigo mais acreditar na ideia de que as pessoas apenas vem e vão. Não consigo ignorar o fato de que eu, pau para toda obra, passo na vida das pessoas com mesma frequência que almas em fuga desaparecem de listas de contatos e números de emergência, e por vários anos eu achei que o problema fosse eu.

E talvez seja mesmo.

Por mais que eu ache linda essa coisa de você criar uma conexão rápida com alguém, no meu caso, conexões não salvam amizades fracas que surgem quando a agenda deixa. Ao meu ver, amizade é mais do que ir do começo ao fim em 3 meses, e talvez hoje eu entenda o por que.

Amizades instantâneas não me nutrem. E talvez não nutra ninguém.

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O quanto somos vendíveis?

 

Se tem uma coisa que a maioria das pessoas têm em comum, essa coisa é a vontade de ter mais dinheiro. Sim, me incluo, sinto muito por isso, mas todos nós sabemos que as contas não são pagas nem com abraço nem com energia positiva. E sinto muito pelo trocadilho. Mas até onde vale ter dinheiro, quando a forma de ganhá-lo mexe com a sua essência? Quando isso acontece, o que estamos vendendo, exatamente? Nosso trabalho ou nossa saúde mental? Se a sua resposta for a segunda opção, espero que você seja mais que milionário. É, eu sei, não somos.

Existem algumas propostas de trabalho que, por mais que nosso bolso peça ajuda. A nossa mente entra em curto e é como se houvesse uma traição nossa com nós mesmos. A ideia do dinheiro entrando é sensacional, mas e a noite? Está bem dormida?

A minha não estaria.

Nosso sono pode ser reembolsável?

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O que chamou nossa atenção em 2017: 4 séries, 1 filme e 1 bônus

2017 foi um ano marcante para o entretenimento, especialmente no que diz respeito às mulheres. Por um lado, inúmeras denúncias de casos de assédio, violência sexual e machismo escancararam a face mais feia dessa indústria, ao mesmo tempo em que foram uma vitória da voz feminina, que começa a se fazer ouvir. Por outro, o protagonismo das mulheres teve destaque na mídia, com feitos históricos e grandes sucessos de público, crítica e premiações.

Alguns acontecimentos importantes e recordes (como Lady Bird, de Greta Gerwig, se tornando o filme mais bem avaliado da história do Rotten Tomatoes) estão na ótima retrospectiva do Mulher no Cinema. Inclusive, além do próprio site, fica a recomendação do post deles Os 10 melhores filmes de/sobre mulheres de 2017.

Para o último post do ano da coluna Culturarte, optamos por uma visão pessoal, e escolhemos algumas das produções que mais chamaram a nossa atenção ao longo dele. As indicações vêm com os nomes das autoras do blog que as fizeram. A última e o bônus são as minhas. Confira:

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Não peça por paz. Transforme-se

Desde pequena eu usei o fim de ano para fazer promessas e pedir coisas. Geralmente, eu fundia as duas coisas e tentava tirar o máximo da minha responsabilidade sobre esses atos, já que, né, quem dá presente é o Papai Noel. Eu só recebo. E olhe lá, já que eu nunca levei a sério essa coisa de ser uma boa menina.

Conforme o tempo passa e amadurecer deixa de ser opcional, você começa a sentir o peso dos pedidos, pelo menos eu comecei a sentir. Parei de pedir amigos e relacionamentos novos, porque amigos não são plantas que você vai lá as vezes e coloca um pouco de água; parei de pedir para perder peso, já que me amar é mais importante do que o número da minha roupa e, principalmente, parei de pedir paz.

Sim, eu sei que eu sou responsável apenas por aquilo que me rodeia, e olhe lá, mas se eu não puder transformar esse espaço em um espaço pacífico, como eu posso pedir consciência por outras pessoas que ainda fogem das responsabilidades, independentemente de quais sejam?

A ideia, deixaremos claro, não é entrar em crenças, mas entrar em um ponto que toda a humanidade tem em comum: o ato de mudar.

Nós, como seres pensantes, agimos da mesma forma todos os finais de ano, pedindo coisas que poderíamos conseguir – se isso depender só de nós – e tirando a nossa responsabilidade sobre atos que envolvem mais do que um cara rico nos dar um emprego. É fácil acendermos uma vela pedindo por um ano melhor, sendo que na nossa primeira oportunidade de transformar o nosso ambiente em um ambiente mais amigável e pacífico, nós distribuímos pedras e paus à todos os navegantes.

Paz não deveria ser um pedido, mas um exercício de consciência diário.

É super fácil jogarmos a responsabilidade de uma humanidade sedenta de sangue em um ser acima de nós. É cômodo, prático, simples. É super fácil fazermos pedidos de paz pra o Bom Velhinho enquanto fazemos da vida dos outros um inferno particular.

Que nesse finzinho de ano nós possamos colocar as duas mãos na consciência – as duas porque as coisas andam complicadas – e que estejamos aptos a arrumar os nossos erros e excessos, para que o ano que está chegando não venha com preconceitos sobre os humanos pidões. Todos nós queremos um ano bom, mas ninguém se preocupa em ser bom para o ano que está vindo, muito menos com as coisas que estão vindo.

E ainda dá tempo. De mudar, melhorar, evoluir. A paz não vem dos outros, mas vem de nós.

Transforme-se.